Um estudo recente divulgado nesta quarta-feira (23) revela que aproximadamente 20% dos brasileiros já se depararam com imagens íntimas falsas produzidas por inteligência artificial (IA). A pesquisa, intitulada Índice de Conscientização sobre Violência contra Mulheres, foi conduzida pelo Instituto Natura em parceria com a Avon, com apoio do Movimento Pela Vida das Mulheres, e traz um panorama preocupante sobre a exposição a conteúdos digitais manipulados e suas implicações para a segurança e o bem-estar das mulheres no país.
O levantamento aponta que esse contato com imagens falsas geradas por IA é mais frequente entre homens e jovens de até 25 anos, considerando que a pesquisa ouviu exclusivamente pessoas maiores de 18 anos. Este é o primeiro índice realizado pelo instituto com foco na percepção e na experiência dos brasileiros em relação à violência digital direcionada às mulheres, uma questão que vem ganhando destaque à medida que as ferramentas de inteligência artificial se popularizam e comunidades virtuais disseminam discursos de ódio e desinformação contra o gênero feminino. Entre esses grupos, destacam-se os chamados “red pill”, conhecidos por promoverem visões misóginas na internet, contribuindo para o agravamento do cenário de violência digital.
Segundo o estudo, 37% da população brasileira foi classificada nos níveis de “alto” ou “muito alto” de conscientização sobre a violência contra as mulheres em 2026, um aumento de oito pontos percentuais em relação ao ano anterior, 2025. Entre os homens, esse índice foi de 28%, enquanto entre as mulheres atingiu 44%, demonstrando uma maior percepção do problema por parte do público feminino. A elevação nos níveis de conscientização foi registrada tanto entre homens quanto entre mulheres, indicando uma ampliação do entendimento sobre o tema em toda a sociedade.
Para avaliar o grau de percepção acerca da violência contra as mulheres, o índice considerou três eixos de avaliação, que envolvem a compreensão das diferentes formas de agressão e discriminação enfrentadas pelo sexo feminino. A pesquisa também evidencia um cenário alarmante no que diz respeito à vulnerabilidade das mulheres, com metade das entrevistadas afirmando já ter temido por suas próprias vidas durante uma discussão ou confronto. Além disso, o estudo revela que muitas situações cotidianas, muitas vezes não reconhecidas como violência, continuam a afetar a vida das mulheres.
Um dado preocupante mostra que seis em cada dez mulheres relataram já ter passado por episódios em que suas opiniões, ideias ou sugestões foram desconsideradas, comportamento associado à violência psicológica. Ainda, 32% dessas mulheres afirmaram já ter deixado de receber pensão alimentícia do ex-companheiro, uma situação que pode configurar violência patrimonial, uma das várias formas de agressão que muitas vezes passam despercebidas.
Apesar de 81% dos entrevistados reconhecerem que há formas de violência contra as mulheres além das agressões físicas e sexuais, a média de tipos de violência citados por cada pessoa foi de apenas 1,71, indicando uma possível subestimação ou desconhecimento sobre a diversidade de manifestações de violência de gênero.
A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas autoadministradas online, coletadas via redes sociais, totalizando 2.845 casos, incluindo um reforço de 345 entrevistas em Alagoas, em uma amostra com nível de confiança de 95% e margem de erro de ±1,96 ponto percentual. Os dados reforçam a necessidade de maior atenção às formas de violência digital e às estratégias de conscientização para proteger as mulheres, em um contexto em que o uso de inteligência artificial e a disseminação de discursos de ódio representam ameaças crescentes à integridade feminina.