Uma equipe de pesquisadores brasileiros partirá neste domingo, 20 de novembro, de Fortaleza, no Ceará, com o objetivo de mapear e explorar a Zona de Fratura Romanche, uma extensa formação submarina de aproximadamente 1.000 quilômetros de comprimento localizada no meio do Atlântico, entre a costa nordeste do Brasil e a costa oeste do continente africano. A iniciativa, batizada de “The Gap”, visa aprofundar o entendimento sobre os processos oceanográficos na região, incluindo a ocorrência de ressurgência equatorial, fenômeno que consiste na elevação de águas mais frias e ricas em nutrientes até a nível da superfície marinha, impulsionado principalmente pelos ventos alísios.
A expedição será conduzida a bordo do navio de pesquisa Falkor, cedido pelo Schmidt Ocean Institute, e contará com o uso de tecnologia avançada, como um rover e um submarino autônomo, que serão operados remotamente. O objetivo principal é mapear duas áreas distintas da formação submarina, coletar amostras de rochas e de organismos vivos em paredes de até 4.500 metros de profundidade, além de estudar a dinâmica das correntes marítimas e a morfologia dos habitats de fundo. Os dados obtidos contribuirão para compreender a relação entre a ressurgência equatorial e as comunidades profundas, além de fornecer informações sobre a influência da produção de alimentos na superfície marinha sobre os ecossistemas de fundo.
Segundo o professor José Angel Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que lidera a expedição, o estudo é fundamental para ampliar o conhecimento sobre regiões de oceano profundo, das quais se estima que menos de 1% do seu volume seja conhecido, embora representem cerca de 70% da crosta terrestre. A pesquisa busca gerar evidências concretas sobre a biodiversidade e os impactos humanos nessas áreas, que poderão subsidiar futuras ações de preservação e conservação marinha.
A equipe de trabalho inclui outros cinco professores universitários brasileiros — dois da Univali, um da Universidade de São Paulo (USP), um da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e um da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) — além de sete estudantes, um pesquisador adicional e a tripulação do navio. No total, a expedição reúne 25 especialistas de cinco nacionalidades diferentes. A previsão é que o grupo chegue à área de estudo por volta do dia 25 de setembro, iniciando o mapeamento com uma sonda acústica por cerca de dois dias, antes de realizar mergulhos com o robô submarino SuBastian, capaz de atingir profundidades de até 4.500 metros.
Este robô, considerado de alta performance, será responsável por coletar amostras e fazer imagens detalhadas do fundo oceânico, permitindo a construção de mapas com precisão de centímetros. A operação será transmitida ao vivo, com narração, pelo canal do Schmidt Ocean Institute, apoiador da missão. Para áreas de maior interesse, será utilizado o submarino autônomo, que pode se aproximar ainda mais do fundo e oferecer uma visão detalhada da topografia submarina, especialmente na segunda área de estudo, mais próxima da costa africana.
A expectativa dos pesquisadores é que os resultados iniciais sejam compilados em cerca de dois anos, embora a análise completa e a produção de publicações científicas possam se estender por até uma década, considerando a complexidade do trabalho e a quantidade de dados coletados. Além do professor Perez, a equipe conta com outros cinco docentes brasileiros, sete estudantes, um pesquisador e a tripulação do Falkor, que embarcará em Gana em 26 de outubro após a expedição.
A iniciativa faz parte do Programa de Mar Profundo, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), e integra um projeto de expedições internacionais financiadas pelo Schmidt Ocean Institute, que realiza ações de pesquisa no Atlântico Sul e Caribe, com o compromisso de disponibilizar publicamente os resultados. Desde 2009, a Universidade do Vale do Itajaí participa de diversas expedições de exploração oceânica, reforçando sua atuação no estudo de ambientes marítimos profundos.