A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, afirmou nesta segunda-feira, 14 de novembro, que a Europa deve intensificar seus esforços para se tornar uma produtora de tecnologia de inteligência artificial (IA), a fim de preservar sua autonomia e garantir ganhos de eficiência essenciais para manter seu modo de vida. Lagarde destacou que, apesar dos investimentos de empresas europeias na área de IA, a maior parte da tecnologia utilizada ainda é importada principalmente dos Estados Unidos, o que expõe o continente a vulnerabilidades significativas.
Durante um discurso realizado em Viena, a líder do BCE alertou que, nos próximos anos, a inteligência artificial deverá desempenhar papéis cada vez mais presentes na rotina de diversos setores, incluindo inspeção de mercadorias na fronteira, auditoria de declarações fiscais, operação de transporte ferroviário, monitoramento de pacientes em hospitais e processamento de pagamentos bancários. Ela ressaltou que uma eventual interrupção ou mudança nos termos de acesso a essas tecnologias poderia afetar de forma simultânea e profunda todos esses setores, configurando uma vulnerabilidade inédita na relação comercial da Europa.
Lagarde destacou que essa dependência é especialmente preocupante porque a influência exercida por fornecedores externos, como os Estados Unidos, nunca antes foi tão significativa na história econômica do continente. Ela citou exemplos de negociações sobre tarifas e impostos digitais, que poderiam ser usadas como instrumentos de pressão, dado o controle que esses fornecedores detêm sobre as plataformas de IA utilizadas na Europa.
Apesar de a União Europeia e os Estados Unidos manterem uma relação de aliança estratégica, a confiança mútua foi abalada por uma série de questões recentes. Entre elas, estão tarifas comerciais, a exigência dos EUA de assumir o controle da Groenlândia e a retirada de tropas americanas da Europa, motivada por divergências políticas. Esses fatores reforçam a necessidade de a Europa desenvolver sua própria capacidade de produção de tecnologia de IA.
Lagarde defendeu que o caminho para evitar o isolamento passa por ampliar a infraestrutura de capacidade computacional na Europa. Segundo ela, essa estratégia é fundamental para que a região possa criar modelos de IA que sejam “bons o suficiente” para a maioria das tarefas, operando com infraestrutura europeia, reduzindo assim a dependência de tecnologias estrangeiras e minimizando riscos de influência externa.
Ela também destacou que a rápida adoção de IA poderia elevar a produtividade na Europa em até 4% ao longo de uma década, o que representaria um impacto positivo considerável para as finanças públicas do bloco. Contudo, Lagarde alertou que a atual capacidade de centros de dados na Europa é insuficiente para atender à demanda, e que, se mantidas as tendências atuais, essa lacuna deverá crescer mais de seis vezes nos próximos dez anos.
A presidente do BCE reforçou a necessidade de a Europa investir em modelos de IA que possam ser utilizados com infraestrutura própria, de modo que a ameaça de isolamento perca força. Além disso, ela apontou que a Europa já está pagando um preço elevado pelo uso de tecnologia estrangeira, uma vez que as empresas de tecnologia dos EUA estão realizando investimentos na Europa, muitas vezes por meio de empréstimos, o que aumenta os custos para o mercado local e exclui outras empresas do acesso ao mercado de dívida.
Lagarde também mencionou que fundos de pensão europeus investem fortemente em ações de tecnologia dos EUA, tornando as poupanças do continente vulneráveis a possíveis correções de mercado. Ela concluiu que, diante desse cenário, a Europa precisa acelerar sua capacidade de desenvolver e implementar tecnologias de IA de forma autônoma, garantindo maior segurança econômica e soberania tecnológica no futuro.