O desmatamento e as atividades humanas na Amazônia representam uma ameaça direta à principal infraestrutura hídrica da América do Sul, conhecida como a “máquina de chuva” do continente. Essa expressão refere-se ao complexo processo ecológico no qual a umidade proveniente do oceano, ao passar pela floresta, gera chuvas que sustentam rios, agricultura e comunidades na região e além dela. Cientistas destacam que a Amazônia, considerada a maior “máquina de chuva” do mundo, é responsável pela liberação diária de aproximadamente 200 a 300 litros de água por árvore adulta, contribuindo para a formação de rios voadores — correntes de vapor de água que se espalham pelo continente, promovendo chuvas em várias regiões.
Segundo a pesquisadora Julia Valentim Tavares, essa floresta funciona como uma infraestrutura hídrica de escala continental, sustentando ciclos de água, nutrientes e carbono em níveis local, regional e global. Ela explica que, ao todo, cerca de 400 bilhões de árvores trabalham juntas diariamente nesse processo, formando uma espécie de “rios voadores” que garantem a circulação de umidade e chuva em grande parte da América do Sul.
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia — uma entidade composta por mais de 350 pesquisadores dedicados ao estudo do bioma — reforça que a floresta é a coluna vertebral dos ciclos ambientais que sustentam a vida na região e no planeta. Ela alerta que a devastação da floresta, causada por atividades como mineração, desmatamento, queimadas e o narcotráfico, já está comprometendo essa complexa rede de conectividade ecológica, cuja perda pode ter consequências catastróficas globais.
As cientistas ressaltam que o impacto do desmatamento já é mensurável. Estudos indicam que a redução da cobertura vegetal na Amazônia brasileira resulta em diminuição de chuvas em regiões do Brasil e da Bolívia, além de elevar as temperaturas locais e aumentar a duração e intensidade das secas. Julia Valentim Tavares investiga, especificamente, o arco do desmatamento na borda sul da Amazônia, onde o volume de chuvas já caiu e as temperaturas subiram na última década. Sua pesquisa busca compreender por quanto tempo as árvores podem resistir às secas antes de suas estruturas internas serem danificadas, o que ameaça a sobrevivência das espécies e a continuidade do ciclo hídrico.
O fenômeno do aquecimento global tem agravado ainda mais a situação. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca de sua história, consequência do fenômeno climático El Niño, que altera a circulação atmosférica e aquece as águas do Oceano Pacífico. Essa seca afetou cerca de 88% da bacia amazônica, provocando desabastecimento de água em cidades como Bogotá, na Colômbia, e cortes de energia em Quito, no Equador. Além disso, a seca intensificou as queimadas na floresta, que tiveram recordes naquele ano, e cuja fumaça chegou a se espalhar por várias regiões do Brasil, incluindo áreas do Sudeste.
As pesquisadoras alertam que o aumento da frequência e intensidade dessas secas pode transformar a Amazônia de um sumidouro de carbono em uma fonte de emissões, contribuindo ainda mais para o aquecimento global. Julia Valentim Tavares explica que, na ausência de água suficiente no solo, as árvores deixam de manter suas estruturas internas, o que pode levar à morte por sede. Com o agravamento do clima, a floresta pode deixar de gerar os rios voadores essenciais para o clima da região e do planeta.
Marielos Peñaclaros destaca que a solução para evitar o colapso da “máquina de chuva” depende de uma redução drástica nas emissões de gases do efeito estufa, principalmente por meio da substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia menos poluentes. Ela também reforça a necessidade de investir na conectividade ecológica da floresta, restaurando áreas degradadas e recuperando regiões desmatadas, a fim de evitar que a Amazônia atinja um ponto de não retorno, cuja perda total seria catastrófica para o equilíbrio climático global.