Uma crise de abastecimento de diesel na Rússia, motivada por ataques ucranianos, paralisações operacionais e aumento na demanda interna, está afetando o mercado global de combustíveis. Apesar de Moscou continuar produzindo petróleo, a capacidade de convertê-lo em derivados como o diesel diminuiu significativamente, refletindo-se em filas nos postos de combustíveis na capital russa e em uma redução expressiva nas exportações do país.
Segundo dados da empresa de análise de mercado Kpler, citados pela Reuters, a Rússia, que ocupa a posição de segundo maior exportador mundial de diesel após os Estados Unidos, embarcou em média 817 mil barris diários desse combustível em 2025. No entanto, esse volume caiu drasticamente para cerca de 400 mil barris em junho e atingiu aproximadamente 234 mil barris nos primeiros dez dias de julho. Essa redução é resultado de fatores como ataques ucranianos às instalações de refino, paralisações operacionais e a maior demanda interna por combustíveis, levando Moscou a restringir suas exportações para priorizar o abastecimento doméstico.
O governo russo prorrogou as restrições às exportações até 31 de janeiro de 2027, embora produtores específicos possam retomar os embarques de diesel, combustível marítimo e gasóleos a partir de setembro. Essa medida cria uma incerteza significativa no mercado internacional, uma vez que o volume exato de diesel russo disponível para exportação permanece incerto.
A influência da crise russa é sentida especialmente na Europa, mesmo sem importações marítimas diretas de derivados russos desde 2023. Com a diminuição das cargas vindas da Rússia, países como Brasil, Turquia e outros precisam disputar cargas de diesel provenientes dos Estados Unidos, Índia e outros centros de refino que também atendem ao mercado europeu. Essa competição ocorre em um contexto de alta já pressionada por fatores como problemas em refinarias e tensões no Oriente Médio. Em 30 de julho, por exemplo, o prêmio do gasóleo europeu de baixo teor de enxofre sobre o petróleo atingiu US$ 74,66 por barril, um recorde, segundo a Reuters.
Desde fevereiro, os preços do diesel na Europa acumularam alta superior a 70%, o que evidencia a forte valorização do combustível. A Rússia, embora não seja a única responsável por essa escalada, funciona como um fator multiplicador, pois a diminuição de suas exportações aumenta a disputa por cargas de diesel disponíveis no mercado mundial.
No Brasil, a dependência de importações de diesel torna-se ainda mais evidente diante desse cenário. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que, em 2025, o país importou cerca de 17,09 milhões de metros cúbicos de diesel, dos quais aproximadamente 47% (8,04 milhões de metros cúbicos) vieram da Rússia. A competitividade do petróleo russo em termos de preço também contribuía para essa dependência, mas a redução na disponibilidade das cargas obrigou importadores brasileiros a recorrer a fornecedores como Estados Unidos e Ásia, aumentando a pressão sobre o mercado interno.
Os preços do diesel nos mercados internacionais refletem essa escassez. Em 10 de agosto, por exemplo, o valor do futuro do diesel ultrabaixo teor de enxofre nos Estados Unidos subiu 7,4%, atingindo US$ 4,19 por galão. Na mesma ocasião, as margens de refino na Europa quase duplicaram, chegando a um aumento de quase 10%.
O Brasil, por sua parte, dispõe de algum amortecimento. A Petrobras reduziu em 85,2% suas importações de diesel no segundo trimestre de 2025 e registrou um recorde de produção de 3,903 bilhões de litros em julho, o que ajuda a mitigar a exposição ao mercado externo. No entanto, essa proteção não elimina o risco de desabastecimento ou de aumento de preços, uma vez que o país ainda depende de importações para equilibrar sua oferta e consumo. Variáveis como câmbio, tributos, políticas de biodiesel e decisões comerciais da Petrobras podem influenciar o ritmo de reposição de estoques, mas não eliminam a vulnerabilidade do mercado brasileiro diante da crise global.
As filas nos postos de Moscou representam a face mais visível de um problema que vai além da Rússia. A perda de capacidade de transformar petróleo em combustíveis derivados, aliada à redução das exportações de diesel, provoca uma diminuição na oferta global, elevando os custos e intensificando a disputa por cargas em diversos mercados internacionais, incluindo Europa e Brasil.