As ações de grandes empresas do setor de varejo no Brasil acumulam perdas próximas de 100% desde o início de 2020, em um movimento que contrasta com a trajetória do índice Ibovespa, que apresentou valorização de mais de 44% no mesmo período. Enquanto o principal indicador da Bolsa brasileira passou de mais de 118 mil pontos em janeiro de 2020 para cerca de 171 mil pontos na última sexta-feira (21), o índice que reúne empresas ligadas ao consumo, conhecido como ICON, caiu 49,4%, passando de quase 5.500 pontos para 2.753 pontos.
O impacto mais severo foi observado entre algumas das maiores varejistas do país. Americanas e Casas Bahia, por exemplo, tiveram suas ações praticamente desvalorizadas a zero, com perdas próximas de 100% desde o começo de 2020. Outras empresas de destaque, como Magazine Luiza e Marisa, também sofreram quedas superiores a 95% no mesmo período. Além dessas, várias outras companhias do setor registraram perdas expressivas, embora em menor grau.
Antes dessa forte desvalorização no mercado acionário, muitas dessas empresas tiveram períodos de alta. Em 2020, a taxa básica de juros, a Selic, chegou a 2%, o que favoreceu o aumento do consumo e incentivou a tomada de risco na Bolsa, elevando os preços das ações do setor de varejo. No entanto, os anos seguintes foram marcados por uma elevação significativa na taxa de juros, que encareceu o crédito tanto para consumidores quanto para as próprias empresas, dificultando a manutenção do crescimento observado anteriormente.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, destacou em entrevista ao CNN Money que o aumento dos juros elevou o custo das dívidas e impactou diretamente a operação das varejistas. Segundo ele, muitas dessas companhias, que haviam aumentado sua alavancagem durante o período de juros baixos, passaram a enfrentar despesas financeiras elevadas quando a taxa subiu para 15%, dificultando sua sustentabilidade financeira. Perri também ressaltou que, além do impacto do aumento dos juros, algumas empresas enfrentaram maior concorrência e perda de espaço em segmentos específicos. No setor de vestuário, a entrada de concorrentes estrangeiros foi apontada como um fator de pressão, enquanto no setor de eletrônicos, a combinação de custos elevados, juros altos e queda na demanda agravou a situação.
Marcos Bassani, sócio da Boa Brasil Capital, complementa que a deterioração do cenário de crédito, aliada à alta da Selic, dificultou o acesso ao financiamento para consumidores, elevando a inadimplência e comprimindo as margens de lucro das varejistas. Segundo ele, a precificação de algumas dessas empresas como ações de tecnologia durante o período de juros baixos também reflete a influência do ambiente favorável ao consumo emergencial, impulsionado por medidas como o auxílio emergencial, a migração do consumo de serviços para bens duráveis e a entrada de novos investidores pessoas físicas na Bolsa.
Algumas dessas empresas, devido à forte queda de valor, passaram a ser negociadas como penny stocks, ou seja, ações com preço abaixo de R$ 1. Casas Bahia, por exemplo, caiu de R$ 256,57 em janeiro de 2020 para R$ 0,43 em 21 de agosto de 2026. Segundo especialistas, a Bolsa considera uma companhia em descumprimento quando o preço de suas ações permanece abaixo de R$ 1, por 30 pregões consecutivos, o que leva à notificação da empresa e a um prazo de até seis meses para readequação, geralmente por meio de grupamento de ações. Contudo, esse procedimento não resolve as dificuldades financeiras da companhia nem melhora sua competitividade.
Diante do cenário atual, o especialista da Boa Brasil Capital afirma que as condições que favoreceram a valorização das varejistas entre 2020 e 2021, como juros baixos, consumo elevado e maior atratividade da renda fixa, não estão mais presentes. Com juros reais elevados e consumo mais controlado, o ciclo de valorização observado na pandemia se tornou inviável, dificultando a recuperação do setor. Além disso, algumas empresas, como Casas Bahia e Marabraz, buscaram a recuperação judicial para reorganizar suas finanças e renegociar dívidas que totalizam bilhões de reais, enquanto o Grupo Pão de Açúcar firmou acordo com credores para um plano de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,5 bilhões em obrigações.
O cenário demonstra uma fase de dificuldades financeiras generalizadas no setor de varejo, marcada por endividamento elevado, queda de valor de mercado e dificuldades operacionais, refletindo o impacto dos juros elevados e da mudança de condições macroeconômicas no ambiente de negócios das empresas brasileiras de varejo.