Na terça-feira, 11 de agosto, aproximadamente 200 pessoas participaram do primeiro evento aberto à comunidade promovido pela Fiocruz sobre os efeitos do fenômeno El Niño na saúde. A iniciativa ocorreu de forma simultânea à participação da Fundação na Oficina de Planejamento do Plano de Ação do Sistema Único de Saúde (SUS) sobre o mesmo tema, realizada pelo Ministério da Saúde em Brasília. O objetivo é consolidar um plano de ações que será submetido à aprovação na Comissão Intergestores Tripartite nas próximas semanas, buscando fortalecer a resposta do sistema de saúde às adversidades climáticas provocadas pelo fenômeno.
A atividade na Fiocruz foi organizada pelo Grupo de Trabalho (GT) Clima e Saúde, integrante do Programa de Saúde, Ambiente e Sustentabilidade (FioProsas), vinculado à Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS). O coordenador de Saúde e Ambiente da VPAAPS, Guilherme Franco Netto, representou a Fundação na reunião do Ministério da Saúde. Segundo Patricia Canto, vice-presidente adjunta de VPAAPS, o episódio de vendaval que atingiu o Rio de Janeiro no final de julho reforça a necessidade de preparação do país para eventos climáticos extremos. Ela destacou que o cenário de crise climática exige ações coordenadas e planejamento estratégico para que o Sistema Único de Saúde (SUS) possa oferecer respostas mais eficazes às demandas decorrentes de ondas de calor, secas, queimadas e outros fenômenos relacionados às mudanças climáticas.
Durante o evento, ficou evidenciada a importância de integrar ações intersetoriais e estabelecer parcerias entre diferentes órgãos e instituições. Participaram representantes do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), da Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro e do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz. Por meio de mapas, infográficos e dados históricos, os especialistas explicaram que o El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, cuja intensidade tem sido potencializada pelo aquecimento global. Essa combinação tem provocado alterações climáticas significativas no Brasil e no mundo, afetando a saúde da população.
O meteorologista do Inmet, Leydson Galvíncio Dantas, afirmou que o El Niño de 2026 tende a ser um dos mais fortes já registrados na história. Ele explicou que o monitoramento das águas do Pacífico indica um aquecimento acima da média para o período atual, comparado a anos anteriores em que o fenômeno se manifestou. Os modelos matemáticos apontam que o pico do El Niño deve ocorrer no Brasil entre o último trimestre de 2026 e o início de 2027, atingindo a categoria de “Muito Forte”, a mais severa na escala que também inclui “Fraco”, “Moderado” e “Forte”. Após esse período, espera-se que os efeitos do fenômeno permaneçam de forma moderada até o outono de 2027. Entre as consequências previstas estão temperaturas até 2°C acima da média nacional, secas na região Norte e excesso de chuvas no Sul do país. Dados do Inmet revelam que, nos últimos anos, a intensidade e a frequência do El Niño têm aumentado, assim como a velocidade com que ocorre o seu ciclo.
A previsão de impactos mais severos tem impulsionado ações coordenadas por órgãos públicos. De forma inédita, instituições responsáveis pela regulação do uso da água, gestão de riscos e previsão climática passaram a produzir boletins mensais de monitoramento do El Niño e seus possíveis efeitos no Brasil, com o objetivo de subsidiar gestores públicos na tomada de decisões. Participam dessa iniciativa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e o próprio Inmet.
No estado do Rio de Janeiro, foi criado, pela primeira vez, um Comitê Estadual de Enfrentamento dos Efeitos do El Niño, reunindo 18 órgãos estaduais, incluindo a Defesa Civil. O comitê é estruturado em quatro Câmaras Técnicas, que atuam em diferentes eixos estratégicos, sendo um deles dedicado à Saúde Pública, com a Fiocruz atuando como parceira técnica. Em junho, a Fiocruz, por meio do Observatório de Clima e Saúde, divulgou uma nota técnica detalhada sobre os potenciais impactos do El Niño na saúde da população brasileira, apresentando riscos como afogamentos, traumas, doenças diarreicas relacionadas a enchentes e águas contaminadas, além de problemas respiratórios, cardiovasculares e agravamento de doenças renais em períodos de secas e ondas de calor. A nota também recomenda ações preventivas, planejamento de abrigos e uma comunicação de risco que seja territorializada, evitando alarmismos e promovendo medidas de autoproteção.
Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde, destacou que a gestão do risco deve ser preventiva, baseada em evidências e articulada de forma intersetorial, sem aguardar a confirmação de desastres para mobilizar recursos. Em julho, a Fiocruz também elaborou um documento em resposta ao Ministério da Saúde, detalhando suas estratégias e ações relacionadas aos impactos do El Niño na saúde pública.
Outra iniciativa relevante foi o lançamento do Guia de Vigilância Popular em Saúde e Emergências Climáticas, desenvolvido pela Fiocruz Ceará em parceria com pesquisadores populares, povos indígenas, profissionais do SUS e movimentos sociais. O guia reforça a importância de envolver as comunidades vulneráveis na vigilância e na elaboração de respostas às crises climáticas, reconhecendo que a participação popular é fundamental para uma gestão mais efetiva e inclusiva das emergências ambientais.
Nos dias seguintes ao evento, pesquisadores do GT Clima e Saúde da Fiocruz participaram de uma oficina no Rio de Janeiro para discutir e estruturar o Plano Clima e Saúde da instituição, que visa contribuir para a adaptação do SUS às mudanças climáticas e orientar a formulação de políticas públicas voltadas ao tema no Brasil. Durante o período eleitoral, as atividades da Agência Fiocruz de Notícias seguem orientações específicas da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, restringindo a divulgação de conteúdos a informações meramente informativas ou de serviço à população.