Martin Scorsese e Steven Spielberg apontaram um mesmo filme como uma fonte crucial de inspiração para suas criações. O que ocorreu foi que “Rastros de Ódio” (“The Searchers”, 1956), dirigido por John Ford, foi destacado pelos cineastas como uma referência fundamental. Lançado em 1956, a narrativa do filme segue Ethan Edwards (John Wayne), um ex-soldado em busca de sua sobrinha sequestrada por indígenas. Embora a trama central trate de vingança, o filme também revela questões como racismo, isolamento e as feridas morais de uma sociedade pós-conflito.
Spielberg frequentemente revisita essa obra-prima antes de iniciar novos projetos. Ele comentou: “Sou extremamente sensível à forma como ele utiliza a câmera para compor suas cenas e como organiza o espaço. A maneira como posiciona as personagens, muitas vezes mantendo a câmera estática enquanto elas parecem estar em movimento, é fascinante.” Ele fez essa observação durante uma conversa com o American Film Institute. Para Spielberg, Ford se assemelha a um pintor clássico que valoriza a moldura, não apenas o que está dentro dela. “Preciso assistir a ‘Rastros de Ódio’ novamente”, afirmou em 2013.
Essa estética se reflete em filmes como “E.T.”, “O Resgate do Soldado Ryan” e “Guerra dos Mundos”, onde o ambiente e a paisagem têm um papel tão significativo quanto os próprios personagens. Martin Scorsese, por sua vez, extraiu de Ford a profundidade psicológica e a escuridão da narrativa. “Como toda grande arte, é desconfortável. O núcleo do filme é doloroso. Cada vez que o revisito – e já o fiz inúmeras vezes desde seu lançamento em 1956 – ele continua a me assombrar e a me inquietar”, compartilhou o cineasta ao The Hollywood Reporter.
O personagem Ethan Edwards é um dos mais perturbadores do cinema americano, encaixando-se perfeitamente no perfil de Wayne e em sua colaboração com Ford e outros diretores como Howard Hawks e Henry Hathaway. Scorsese considera essa interpretação uma das melhores da carreira de Wayne. O crítico Roger Ebert observou que a figura de Ethan Edwards influenciou Paul Schrader na criação de Travis Bickle, o protagonista atormentado de “Taxi Driver”. Ambos os personagens são homens obcecados e incapazes de se reconectar com a realidade.
Scorsese fez uma homenagem a “Rastros de Ódio” em seu filme de estreia, “Quem Bate à Minha Porta?” (1967). Em 2012, ele declarou que a obra de Ford “retrata os piores aspectos do racismo em nosso país”, revelando “o lado obscuro da psique americana”. A cena final, com John Wayne posicionado na porta antes de se afastar em direção ao deserto, transformou-se em um símbolo da solidão e do fracasso do herói americano. Ford desconstrói o mito da conquista, apresentando um homem à margem da civilização.
Reconhecido pelo American Film Institute como o maior faroeste de todos os tempos, o filme continua a exercer influência quase setenta anos após seu lançamento. George Lucas se inspirou em sua estrutura para a cena do massacre em “Star Wars”, enquanto David Lean o estudou antes de criar “Lawrence da Arábia”.