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O ‘Caos’ das Alagoas

Imagem: Reprodução

Não sei se há uma conexão direta, mas, ao maratonar a série ‘Caçador de Marajás’ no Globoplay, não pude deixar de lembrar da novela ‘Vale Tudo’. Fiquei hipnotizada pela tela, sem querer perder nenhum detalhe daquele período aterrorizante que vivemos no Brasil. Dirigida por Charly Braun, que já conquistou prêmios de melhor direção no Festival do Rio com seu primeiro longa, ‘Além da Estrada’, e é também responsável por ‘Vermelho Russo’, a série merece mais reconhecimento do que recebeu: é um testemunho indispensável para não esquecermos os anos conturbados e insensatos do governo Collor.

A produção é primorosamente elaborada, com imagens de época, entrevistas selecionadas e, principalmente, depoimentos de jornalistas que desempenharam um papel crucial naquele contexto, revelando os escândalos e absurdos perpetrados pelo grupo de Alagoas. A trilha sonora também se destaca, divertida e repleta de surpresas agradáveis.

Como fui entrevistada para o documentário — na época, era colunista da Folha de S.Paulo e acompanhei de perto todo esse movimento — muitos amigos me enviaram mensagens expressando a mesma indignação: como conseguimos sobreviver a tudo isso? Todas aquelas artimanhas, desvios e fraudes que marcaram o governo Collor.

Se Glória Perez uma vez alegou que a ficção nunca consegue acompanhar a realidade, ‘Caçador de Marajás’ é a prova disso. As loucuras de ‘Vale Tudo’ não se comparam. Odete Roitman? Fernando Collor? Os políticos daquela era, a família do presidente, os amigos e a ostentação estão todos retratados. Inclusive, a mãe de santo que prestava serviços a ele e, claro, a então primeira-dama Rosane Collor, que veio de Canapi, no interior de Alagoas, para brilhar, gastar e exibir-se nos palácios do Planalto, nas cerimônias oficiais, no Alvorada e na Casa da Dinda, onde o casal vivia cercado por cachoeiras, cascatas artificiais e jardins — cenário também para uma macumba intensa…

A série não apenas aborda a mãe de santo, mas também entrevista o cabeleireiro e Luiz Estevão, o “primeiro-amigo”, ex-senador cassado. Ela explora todos os ângulos e revela como, apesar das reportagens da Veja que desenterraram muitos segredos, foi a história do motorista Eriberto França, descoberta pela revista IstoÉ, que possibilitou o impeachment.

A série ainda traz PC Farias, o homem do dinheiro que todos os grandes empresários buscavam para se aproximar do presidente, o “caixa”. Entrevistando o presidente afastado na Casa da Dinda, alguns dias após o impeachment, percebi que ele mantinha a mesma postura inabalável exibida na série, mesmo após a queda do poder e da relevância.

Mais tarde, quando residiu em São Paulo, na Rua dos Franceses, na Bela Vista, em um apartamento amplo, Collor também “causou” entre os vizinhos: seus carros luxuosos eram famosos, assim como seu copeiro.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo novamente em uma live durante a pandemia, e, acredite, ele parecia o mesmo, como se nada tivesse acontecido e como se não tivesse cometido os crimes que lhe foram atribuídos. A única diferença? Estava todo ‘botocado’, quase irreconhecível devido aos procedimentos estéticos.

Atualmente, o ex-presidente cumpre uma pena de 8 anos e 10 meses por corrupção e lavagem de dinheiro, relacionados à Lava Jato, em regime domiciliar em Maceió, monitorado por tornozeleira eletrônica. A saga continua.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade