Desde o momento do nascimento, cada indivíduo carrega uma herança invisível, mas extremamente real: milhões de células originárias do corpo materno. Essas células podem habitar o organismo por décadas e, recentemente, pesquisadores conseguiram elucidar como elas conseguem sobreviver sem serem atacadas pelo sistema imunológico.
Esse fenômeno, conhecido como microquimerismo materno, ocorre quando uma pequena quantidade de células da mãe atravessa a placenta durante a gestação, estabelecendo-se no corpo do feto. Embora essa interação já fosse reconhecida há tempos, os mecanismos que permitem essa coexistência pacífica foram compreendidos apenas agora. Um estudo publicado em setembro de 2025 na National Library of Medicine revela que aproximadamente uma em cada um milhão de células em um adulto pode ser de origem materna.
Considerando que o corpo humano é composto por cerca de 30 trilhões de células, isso implica que carregamos milhões de células que, embora não sejam geneticamente nossas, vieram de nossas mães. Durante a gravidez, a placenta não atua como uma barreira completamente impermeável; ao contrário, facilita a troca de pequenas quantidades de células entre mãe e filho. Algumas dessas células maternas conseguem se fixar em diversos tecidos do progenitor, permanecendo ali durante toda a vida.
A pesquisa realizada por cientistas do Cincinnati Children’s Hospital Medical Center demonstrou que um grupo específico dessas células maternas é crucial para que o sistema imunológico aprenda a reconhecê-las como parte do organismo. Essas células funcionam como “mensageiras”, ativando os linfócitos T reguladores, que são responsáveis por evitar reações imunológicas excessivas. Em outras palavras, elas ensinam o corpo a não reagir contra o que é diferente, mas não representa uma ameaça.
Nos experimentos, os pesquisadores conseguiram remover seletivamente essas células maternas específicas em modelos animais. Ao fazer isso, a tolerância imunológica foi comprometida, e o sistema de defesa começou a agir de forma inadequada. Isso evidenciou que a presença contínua dessas células maternas é vital para manter o equilíbrio do sistema imunológico ao longo da vida, desde a infância até a fase adulta.
Até então, os cientistas não tinham clareza sobre quais células desempenhavam esse papel nem como atuavam. Agora, essa pesquisa abre novas possibilidades para investigar o impacto dessas células em diversas condições de saúde.
Compreender o microquimerismo materno pode lançar luz sobre fenômenos significativos na medicina. No entanto, os próprios pesquisadores reconhecem que muitas questões permanecem sem resposta. Por exemplo, ainda não se sabe por que essas células podem ser benéficas em algumas situações e estar associadas a problemas em outras. Além disso, não está completamente claro como elas conseguem alcançar órgãos mais protegidos, como o cérebro.
Essa descoberta reforça uma ideia poderosa: nenhum ser humano é biologicamente isolado. Carregamos, em termos celulares, uma conexão direta com nossas mães que perdura por toda a vida. Como destacado na divulgação científica do estudo, cada pessoa é composta quase totalmente por suas próprias células — mas uma pequena fração, cerca de uma em cada milhão, provém da mãe. Um legado microscópico, invisível, mas essencial para o funcionamento do corpo humano.
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