*Este artigo é de autoria da professora de kinesologia e engenharia mecânica Allison Altman Singles, da Penn State University, e do professor de engenharia mecânica Joseph M. Mahone, da Alvernia University, ambos nos Estados Unidos, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
“Mais rápido, mamãe, mais rápido!”. O filho de Allison exclamava enquanto ela descia uma colina próxima à sua casa com o carrinho de bebê. Como uma corredora experiente e pesquisadora em biomecânica, ela se viu na mesma situação de muitos pais que tentam encaixar suas corridas entre compromissos de trabalho, preparação de refeições e horários de soneca.
Embora um carrinho de bebê projetado para corridas oferecesse certa flexibilidade, algo parecia não estar certo. Essa inquietação sobre seu estilo de corrida se transformou em um ponto de partida para um projeto de pesquisa colaborativa.
Ambos – Allison Altman Singles e Joe Mahoney – são educadores e pesquisadores na área de biomecânica, interessados em como o estilo de corrida pode impactar o risco de lesões. Juntos, estabelecemos o Laboratório de Avaliação de Biomecânica e Movimento (BaGEL) na Penn State Berks.
A biomecânica estuda como o corpo se move, unindo biologia e física para entender a interação de músculos, ossos e articulações. A experiência de Allison ao correr com um carrinho de bebê levantou questões que não encontramos respostas satisfatórias na literatura científica, levando-nos a investigar no laboratório. Nos últimos quatro anos, temos analisado como correr empurrando um carrinho de bebê afeta a marcha e o risco de lesões por uso excessivo.
A maior parte das normas sobre carrinhos de bebê nos Estados Unidos foca na segurança e no conforto da criança. Mas e o adulto que empurra o carrinho? Lesões por uso excessivo, como dores nas canelas, fraturas por estresse e o famoso joelho de corredor, são frequentes entre os corredores. Mudanças sutis na mecânica de corrida, como as que ocorrem ao adaptar-se a correr com um carrinho de bebê pesado, podem contribuir para essas lesões.
Encontramos dois estudos anteriores que sugeriam efeitos biomecânicos ao correr com um carrinho de bebê. Um deles indicou que empurrar o carrinho faz com que o corredor se incline mais à frente e altere a postura do quadril. Outro estudo mostrou que a velocidade do corredor diminuía e os passos se tornavam mais longos ao empurrar o carrinho. Contudo, a experiência dos corredores ainda era amplamente ignorada por pesquisadores e reguladores.
Decidimos investigar mais a fundo. Convidamos corredores adultos saudáveis para nosso laboratório, onde cada um correu com e sem um carrinho de bebê. Usamos tecnologia de captura de movimento de alta velocidade – a mesma utilizada em videogames e filmes de Hollywood – para registrar os movimentos. Cada corredor também realizou testes em uma placa de força que mediu o impacto de cada passada. Após a coleta dos dados, começamos a análise.
Os resultados indicam que correr com um carrinho de bebê envolve compensações. Por um lado, alguns fatores de risco para lesões por uso excessivo aumentam, enquanto outros diminuem. Em geral, os corredores que empurravam o carrinho apresentaram um impacto por passada 16% menor comparado ao correr sem ele. Isso ocorre porque a força do impacto é redirecionada para as rodas do carrinho, aliviando a carga nas pernas, o que pode reduzir o risco de lesões comuns.
Por outro lado, notamos um aumento de 36% na torção – a carga de torção entre o pé e o solo – o que é preocupante, pois o estresse de torção é um fator que contribui para fraturas por estresse na parte inferior da perna, uma lesão comum entre corredores de longa distância. O ato de segurar o guidão limita a movimentação natural dos braços e do tronco, que normalmente ajudariam a equilibrar a torção a cada passo. Manter a direção do carrinho também intensifica essa força de torção.
Além disso, nosso estudo confirmou que a corrida com carrinho de bebê pode levar o corredor a se inclinar mais para a frente. Embora uma leve inclinação seja normalmente recomendada, a pesquisa mostrou que corredores se inclinaram seis graus a mais ao empurrar um carrinho. Essa alteração afeta a posição das pernas e desloca o centro de massa para frente, aumentando o risco de lesões, conforme demonstrado por estudos anteriores.
Para minimizar o risco de lesões ao correr com um carrinho de bebê, algumas dicas são essenciais. Ajuste sua passada e postura, reduzindo um pouco a extensão da passada e mantendo uma posição neutra. Evite inclinar-se excessivamente, especialmente em subidas. Escolher o carrinho adequado pode também ser um fator importante; prefira modelos com guidão ajustável e estruturas leves, pois se o carrinho for muito baixo, você pode acabar se inclinando naturalmente.
No futuro, planejamos investigar mais questões relacionadas. Este estudo foi conduzido em um ambiente controlado e em superfícies planas, mas queremos entender como colinas e terrenos irregulares influenciam a mecânica de corrida com carrinho de bebê. Também estamos curiosos sobre como diferentes estilos de empurrar, como com uma mão ou a técnica de “empurrar e perseguir”, alteram as forças envolvidas.
Outra vertente de nossa pesquisa examinará se alternativas de design, como carrinhos que podem ser puxados ou aqueles que não exigem as mãos, permitem uma forma de corrida mais natural. Queremos também descobrir se o uso de carrinhos de bebê impacta os hábitos, o volume de treinamento ou a motivação dos corredores.
Correr com um carrinho de bebê é uma excelente maneira de os pais se manterem ativos enquanto desfrutam de momentos com seus filhos. Contudo, assim como em qualquer tipo de corrida, a forma correta é crucial. Estar atento à postura e escolher equipamentos que favoreçam o movimento saudável pode fazer toda a diferença.
Esperamos que nossas descobertas ajudem outros pais a evitar lesões durante as corridas com carrinhos de bebê, enquanto seus filhos brincam alegremente: “Mais rápido, mamãe, mais rápido!”. Correr com seu filho pode ser uma experiência divertida, estimulante e segura, especialmente com um pouco de consciência e ciência ao seu lado.