A peça “Velocidade”, do Grupo Quatroloscinco Teatro do Comum, alcançou um marco significativo em sua história ao ser indicada para três dos mais prestigiados prêmios do teatro brasileiro. Após uma turnê nacional por quatro capitais em 2025, a produção foi nomeada para os prêmios APCA 2025 e Shell Rio de Janeiro 2025, um reconhecimento inédito nos 18 anos de existência do grupo, que tem sua sede em Belo Horizonte.
Além disso, a produção está concorrendo nas categorias de Melhor Espetáculo e Melhor Dramaturgia, escrita por Marcos Coletta e Assis Benevenuto, no APCA 2025, e disputando o Prêmio Shell RJ 2025 na categoria Melhor Iluminação, com o trabalho de Marina Arthuzzi. Essas nomeações colocam “Velocidade” em diálogo com algumas das obras mais relevantes do teatro contemporâneo no Brasil, destacando a presença dos grupos mineiros no panorama nacional de premiações.
Um marco inédito após 18 anos de trajetória
Com quase duas décadas de atuação, o Grupo Quatroloscinco construiu sua história com uma pesquisa contínua que une dramaturgia original, criação coletiva e exploração de linguagem. As indicações aos prêmios APCA e Shell RJ sinalizam um momento decisivo na trajetória do grupo, que, pela primeira vez, se destaca entre os principais concorrentes dessas premiações nacionais.
Esse reconhecimento também sublinha a consolidação de uma cena teatral vibrante em Belo Horizonte, que, apesar de historicamente ativa, nem sempre recebeu a visibilidade que merece nos grandes prêmios. Nesse cenário, “Velocidade” se revela como a culminação de um percurso artístico que amadureceu ao longo de anos de experimentação.
Uma proposta para desacelerar o tempo
Sob a direção de Ricardo Alves Jr. e Ítalo Laureano, “Velocidade” é a décima montagem do Quatroloscinco, e parte de uma provocação central: seria possível desacelerar o tempo? A dramaturgia é inspirada no ensaio “Notas sobre os doentes de velocidade”, da autora mexicana Vivian Abenshushan, e estabelece conexões com outras referências literárias e filosóficas, refletindo sobre a aceleração da vida moderna.
A peça é estruturada como um livro-sonho, dividido em capas, prefácio, dedicatória, sete capítulos e verso da capa. A partir dessa organização, cenas fragmentadas e sobrepostas abordam temas como relações familiares, dinâmicas laborais, memórias de infância, sonhos interrompidos e a incerteza constante sobre o futuro.
Um diálogo poético entre teatro e cinema
Em continuidade à parceria com o cineasta Ricardo Alves Jr., o Quatroloscinco aprofunda a intersecção entre teatro e cinema, desta vez explorando a sonoridade e os cortes de cena. A dramaturgia propõe situações inacabadas que surgem e desaparecem como um fluxo de pensamento, criando uma narrativa não linear e aberta à interpretação do público.
Esse método expande a dimensão sensorial do espetáculo, proporcionando uma experiência que se distancia da lógica convencional de começo, meio e fim, e intensificando a sensação de suspensão temporal.
Coralidade, luz e paisagens em movimento
O trabalho colaborativo dos atores Rejane Faria, Michele Bernardino, Assis Benevenuto, Ítalo Laureano e Marcos Coletta reforça a coralidade como essencial na cena. Os corpos formam paisagens em constante transformação, explorando variações de ritmo, pausa e aceleração.
Nesse contexto, a iluminação, criada por Marina Arthuzzi e indicada ao Prêmio Shell RJ, desempenha um papel fundamental na narrativa. A luz atua como um elemento dramatúrgico, interagindo diretamente com o tempo das cenas e realçando o caráter onírico da encenação.
Teatro contemporâneo com raízes em Belo Horizonte
Para o Grupo Quatroloscinco, as indicações vão além do reconhecimento institucional; elas reafirmam a força do teatro contemporâneo produzido em Belo Horizonte e consolidam a presença dos grupos mineiros no cenário nacional. Simultaneamente, esse feito ressalta a necessidade de políticas de circulação e fomento que garantam a continuidade de pesquisas artísticas de longo prazo.
Expansão nacional e novos horizontes em 2026
Após sua circulação por quatro capitais brasileiras em 2025, “Velocidade” pretende ampliar sua trajetória em 2026. O grupo planeja levar a peça a novas cidades, festivais e mostras pelo país, como parte das comemorações dos 20 anos do Quatroloscinco. A expectativa é que a montagem continue a encontrar diversos públicos e reafirme o teatro como um espaço de encontro, reflexão e desaceleração.