A Igreja da Boa Viagem foi fundada por volta de 1700 na área que hoje corresponde à Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Em 1709, o português Francisco Homem del Rey recebeu permissão da Coroa portuguesa para se estabelecer na região. Ele trouxe consigo uma imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos navegantes, e, posteriormente, construiu uma capela de pau a pique em sua homenagem. Essa iniciativa foi uma forma de agradecer pelas travessias seguras que realizava pelo Oceano Atlântico.
Com o passar do tempo, muitos imigrantes de diferentes estados e países começaram a se deslocar para Minas Gerais em busca de oportunidades no garimpo de ouro, especialmente nas cidades de Ouro Preto e Mariana. Entre esses viajantes, Francisco Homem del Rey se destacou por ser um dos primeiros a fundar uma comunidade religiosa local. À medida que a população crescia, a capela tornou-se insuficiente para atender a demanda dos fiéis. Assim, os moradores decidiram expandir o templo, levando ao desenvolvimento do Arraial do Curral Del-Rei, que se tornou um importante ponto de apoio e bênçãos para viajantes e residentes.
Com a decisão de construir a nova capital de Minas Gerais, o governo viu a necessidade de um templo maior e mais adequado ao novo planejamento urbano. Assim, a atual Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem foi erguida e inaugurada em 1923. Com um estilo neogótico, a igreja se tornou um marco no cenário paisagístico da cidade, situada em uma praça delimitada pelas ruas Sergipe, Alagoas, Timbiras e Aimorés. A tradicional imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem permanece no local há mais de 300 anos, simbolizando a continuidade histórica do templo.
Antes da criação dos grandes cemitérios urbanos, as igrejas costumavam realizar velórios e enterros em áreas adjacentes. No caso da Igreja da Boa Viagem, o cemitério ocupava a área que hoje é a praça em frente ao templo. O engenheiro Aarão Reis, responsável pelo planejamento urbanístico de Belo Horizonte, chegou a considerar a demolição da igreja, mas a Igreja Católica impediu essa remoção. No entanto, em 1894, Reis decidiu extinguir o cemitério, primeiro proibindo novos enterros e, em seguida, transferindo os restos mortais para outros locais.
A Igreja da Boa Viagem passou por três fases distintas: inicialmente, a capela de pau a pique; depois, um templo maior durante o período do Curral Del-Rei; e, finalmente, a catedral atual, que foi reformada entre 2015 e 2020.
No antigo Curral Del-Rei, existiam três templos principais: a matriz da Boa Viagem, a Igreja do Rosário — frequentada principalmente por pessoas negras e ex-escravizados — e a capela de Santana. Com a criação da nova capital, o governo decidiu deslocar a população local, forçando os habitantes mais pobres a se mudarem para áreas mais afastadas do atual Centro de Belo Horizonte. Segundo o historiador Bruno Viveiros, essa situação reforçou um processo de exclusão social, fazendo com que a Igreja da Boa Viagem passasse a representar os interesses da elite branca que ocupava o antigo arraial.