A Dexco, responsável pelas marcas Deca, Portinari, Hydra, Duratex e Castelatto, está implementando uma significativa reestruturação em suas operações, que inclui a diminuição de sua gama de produtos, fechamento de fábricas e a venda de ativos. Essa estratégia visa aprimorar a margem de lucro e diminuir a dívida, que têm impactado os resultados financeiros e gerado incertezas entre analistas e investidores.
Após a divulgação do balanço referente a 2025 na última quinta-feira (5), as ações da Dexco sofreram uma queda de aproximadamente 5%, tornando-se uma das maiores perdas do dia na Bolsa.
O desafio de estabilizar a empresa é intensificado pelo desaquecimento do setor de materiais de construção e pelas altas taxas de juros, que encareceram os custos de financiamento. De acordo com os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo, do BTG Pactual, a Dexco tem avançado de forma gradual na redução de sua alavancagem com a venda de sua base florestal, mas eles acreditam que essa medida não resolve os problemas de forma definitiva. Eles também apontam que a reestruturação nas linhas de revestimentos cerâmicos e metais sanitários ainda apresenta limitações. “Acreditamos que o mercado precisará de mais confiança antes de se comprometer plenamente com essa proposta”, afirmaram em um relatório. “Temos a expectativa de que, se a execução continuar a melhorar, a confiança do mercado se fortalecerá gradualmente.”
A empresa registrou uma queda de 64% em seu lucro líquido ao comparar 2024 e 2025, totalizando R$ 63 milhões. Excluindo ganhos e perdas não recorrentes, a diminuição foi de 47%, resultando em R$ 107,5 milhões. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado e recorrente permaneceu estável em R$ 1,6 bilhão, enquanto a receita líquida se manteve em R$ 8,2 bilhões.
Ricardo Monegaglia, analista do Safra, destacou a importância da Dexco avançar na venda de ativos para melhorar sua geração de caixa e controlar o endividamento. “Defendemos a necessidade de a Dexco vender ativos para reduzir a dívida e as despesas financeiras”, destacou em seu relatório. No quarto trimestre, a dívida líquida da empresa totalizava R$ 5,51 bilhões, uma queda de 1,2% em relação ao trimestre anterior. Isso resultou em uma diminuição na alavancagem, passando de 3,48 para 3,35 vezes. Em 2025, a companhia teve um gasto de R$ 936 milhões com despesas financeiras líquidas, um aumento de 54% em comparação ao ano anterior.
A Dexco vem enfrentando um longo ciclo de investimentos que coincidiu com a retração nas vendas de materiais de construção no Brasil e a elevação das taxas de juros, o que impactou severamente seus negócios, levando a uma revisão em sua estratégia. Na divisão de louças e metais sanitários, a empresa encerrou as operações da fábrica da Deca em João Pessoa, Paraíba, em julho de 2025, concentrando suas atividades na unidade de Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco. O foco agora é em produtos de maior valor agregado e rentabilidade, com a expectativa de uma melhora gradual nas margens.
Na área de revestimentos cerâmicos, a situação é similar, com a suspensão de parte das linhas de produção na Região Sul. A ociosidade da base industrial resultou em perda de escala e aumento nos custos de produção, afetando o lucro. No entanto, a intenção é reduzir os estoques e direcionar-se a itens “premium”, que oferecem margens mais altas.
“Reconhecemos a necessidade de acelerar ajustes internos: reduzir a complexidade, abordar a ociosidade e aumentar a eficiência em áreas críticas, desde as ações de vendas até a eficiência industrial, passando pelo desenvolvimento das fábricas e captação de produtividade”, comentou Raul Guaragna, presidente da Dexco, durante a apresentação dos resultados. Ele observou que os indicadores financeiros da empresa estão “abaixo do potencial”.
Além das mudanças nas fábricas e nas linhas de produtos, a Dexco está negociando a venda de bases florestais que não serão utilizadas por sua divisão de painéis de madeira. Em janeiro, anunciou a venda de 1,2 milhão de metros cúbicos de ativos florestais, embora o valor da transação não tenha sido divulgado. Nesse mesmo mês, a Dexco arrecadou R$ 200 milhões ao vender uma participação minoritária na subsidiária Jatobá Florestal a um investidor, por meio da emissão de novas ações. A Jatobá se dedica à exploração e comercialização de ativos florestais e arrendamento de terras.
Adicionalmente, a Dexco lançou uma nova unidade de negócios, a Duratex Negócios Florestais (DNF), com o intuito de expandir suas operações relacionadas à base florestal e à produção de madeira. Lucianna Raffaini, diretora de Administração e Finanças da empresa, afirmou que o grupo busca gerar mais valor a partir de seus ativos. “Estamos explorando novas avenidas estratégicas de crescimento, que incluem o comércio de madeira, a monetização de resíduos florestais, como o cavaco, e a expansão florestal”, disse ela. Lucianna também reiterou que a desalavancagem é uma “prioridade máxima”. A empresa projeta reduzir a alavancagem de 3,35 vezes, no fechamento de 2025, para aproximadamente 2,7 vezes até dezembro, por meio de melhorias na geração de caixa e vendas de ativos operacionais e não operacionais.