Ana Paula Padrão publicou um novo vídeo em que responde a comentários sobre sua coluna anterior, que abordava questões demográficas. Agora, ela critica tanto o colunista quanto o veículo de comunicação. Pensei em elaborar uma resposta, mas considerações desse tipo costumam ser entediantes. Ana afirmou que “não se trata de burrice, mas de uma reação à estrutura machista”. Vamos, então, discutir um assunto relevante: o uso inadequado da inteligência artificial.
A expressão “não é X, é Y” é um clichê recorrente nos textos gerados por IA. Há três anos, escrevi a respeito das consequências da IA na substituição de funções humanas, usando como exemplo um colunista de economia. O título era “Não escrevi essa coluna”. Essa foi a primeira coluna redigida com o auxílio de IA no Brasil, mas não a última.
Não há nada de intrinsecamente negativo no conceito de que “não é feitiçaria, é tecnologia”. O uso de IA não é prejudicial, nem mesmo quando se trata de textos em primeira pessoa, como alguém compartilhando sua promoção no LinkedIn, ou um indivíduo pedindo desculpas à namorada pelo WhatsApp, ou mesmo a indignação de Ana Paula Padrão em relação ao meu machismo.
A inteligência artificial tem o potencial de nivelar o campo de atuação. As primeiras pesquisas sobre seu impacto no mercado de trabalho corroboram essa ideia. Embora ainda não substitua profissionais altamente qualificados, a IA permite que indivíduos menos competentes atinjam um nível semelhante ao dos medianos. Essa situação já foi observada entre programadores, escritores e atendentes.
Não é por acaso que David Autor, do MIT, sugere que a IA pode ser utilizada para criar novas carreiras. Essas novas funções poderiam diminuir o domínio de profissões bem remuneradas, como medicina e advocacia. Imagine a criação de uma nova carreira, como a de “diagnosticista” ou “procurador popular”: dois anos de faculdade e uma ocupação bem remunerada para pessoas de classes menos favorecidas que, atualmente, não têm acesso a boas oportunidades de emprego. Essa proposta representa a democratização do conhecimento especializado.
Além disso, o custo desses serviços diminuiria. Não seria mais necessário depender de um número reduzido de profissionais extremamente capacitados para acessar saúde ou justiça. Daron Acemoglu, laureado com o Nobel, endossou essa ideia recentemente, referindo-se à IA como “pró-trabalhador”.
O Brasil deveria adotar essa abordagem. O desenvolvimento de novas profissões poderia ajudar a reduzir as desigualdades no mercado de trabalho e democratizar o acesso a serviços essenciais. Esse é um uso positivo da inteligência artificial.