O auditório da Assembleia Legislativa 20 de Setembro estava repleto, criando uma atmosfera de solenidade e expectativa. Sergio Peres, pastor evangélico e deputado estadual em seu quarto mandato, tomou posse como presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul em 2026, apresentando um discurso que se distanciou do protocolo tradicional. Em vez de se restringir a questões técnicas, ele trouxe à tribuna uma narrativa que mesclou aspectos pessoais, espirituais e políticos, revelando sua trajetória de vida e suas prioridades para a gestão.
Peres abriu sua fala recordando sua infância em Caraá, na zona rural de Santo Antônio da Patrulha, onde foi o penúltimo de dezoito filhos de Adriano e Jeorgina, agricultores que lhe ensinaram desde cedo a importância do trabalho. As memórias da agricultura, das aulas na Escola de Campo Santa Doroteia e dos lampiões a querosene foram utilizadas como metáforas para a dignidade e a identidade do povo gaúcho. Ao compartilhar sobre sua juventude, enfatizou seus anos em Gravataí, onde trabalhou em metalúrgicas e fundou seu próprio negócio, até encontrar na Igreja Universal um caminho para a fé e a vida comunitária. Foi nesse contexto que conheceu sua esposa Delani e começou sua missão pastoral em 1993, uma experiência que, segundo ele, serviu como ponte para sua entrada na política.
O tema central de seu discurso foi o municipalismo. Peres argumentou que os municípios são o coração da economia e da identidade gaúcha, clamando por maior autonomia fiscal e uma distribuição mais equitativa dos recursos. Ele citou a Constituição de 1988 como um marco da descentralização, mencionando conquistas como o FUNDEB e a municipalização da saúde, mas alertou para a insuficiência dos repasses diante das crescentes responsabilidades locais. “Prefeitos e vereadores enfrentam cobranças diárias por serviços essenciais, sem que haja proporcionalidade na distribuição tributária”, afirmou.
O novo presidente da Assembleia também abordou as crises recentes enfrentadas pelo Estado, incluindo a fiscal, a sanitária provocada pela pandemia e a climática, que trouxe estiagens e enchentes devastadoras em 2023 e 2024. Ele prometeu que o Parlamento será um aliado dos municípios na reconstrução e não hesitará em exigir do Estado e da União o que é justo para as comunidades. Simultaneamente, destacou os avanços em pavimentação e infraestrutura, recordando que, em sua infância, as estradas eram abertas por moradores com pá e enxada — uma poderosa metáfora da resiliência gaúcha.
Um aspecto distintivo do discurso foi seu tom religioso e pessoal. Peres citou o livro de Gálatas, expressou gratidão a Deus pela oportunidade e reconheceu a esposa Delani como sua parceira de 34 anos. Para ele, a fé é uma força que impulsiona o desenvolvimento, junto com o trabalho e o diálogo. Essa dimensão espiritual conferiu ao discurso uma singularidade rara em solenidades políticas, aproximando-o de uma homilia e reforçando sua identidade como pastor.
Ao assumir a presidência diante de um auditório lotado, Sergio Peres não apenas deu início à primeira gestão do Republicanos na Assembleia, mas também trouxe um estilo próprio: uma combinação de técnica e emoção, de política e espiritualidade. O municipalismo se destaca como sua bandeira, mas seu discurso revelou algo além — uma trajetória de fé, de origem humilde e um profundo compromisso com a comunidade. (por Gisele Flores – [email protected])