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‘Sentimento de indignação. Sinto-me exposta’, relata brasileira que teve foto editada em biquíni pela IA Grok de Musk

1 de 5 Giovanna (nome fictício) teve sua foto modificada por usuário do X usando o Grok. — Foto: Reprodução/Redes sociais

“Fiquei completamente atordoada ao ver isso (…). É uma sensação terrível. Eu me senti exposta, entende?”, comentou Giovanna*, ao ser informada pelo g1 que uma imagem sua de biquíni estava circulando na rede social X, na última segunda-feira (7). “Na foto original que postei nos meus stories, eu estava usando calças.”

A brasileira é mais uma entre as vítimas de usuários do antigo Twitter que utilizam fotos de pessoas anônimas e famosas postadas nas redes sociais, enviando-as ao Grok, a inteligência artificial da plataforma de Elon Musk, para que as imagens sejam alteradas, mostrando nudez ou roupas mínimas.

Esse tipo de manipulação, conhecido como deepfake, não é uma novidade, mas teve um aumento significativo no X no mês passado, tornando-se uma espécie de “tendência” tanto no Brasil quanto em outros países.

No Brasil, a situação ganhou notoriedade após a jornalista Julie Yukari denunciar à polícia, no dia 2, que suas fotos haviam sido manipuladas pela mesma ferramenta. Ela compartilhou uma imagem deitada em sua cama com seu gato na noite de 31 de dezembro e, ao acordar no dia seguinte, descobriu que a foto havia sido alterada várias vezes e postada como se estivesse nua e usando roupas sensuais.

Segundo a legislação brasileira, criar e compartilhar imagens íntimas falsas sem autorização é considerado crime e pode resultar em punição para os responsáveis — incluindo aqueles que apenas replicam o conteúdo, como explica a advogada especialista em direito digital, Patrícia Peck (veja mais abaixo).

Reguladores em países como Reino Unido, França, Índia e Malásia estão planejando investigar a empresa de Musk devido a essas imagens, conforme reportou a agência de notícias France Presse.

No mesmo dia em que Julie registrou sua denúncia na polícia do Rio de Janeiro, o Grok comunicou que tomaria medidas urgentes para corrigir “defeitos nos mecanismos de proteção” que permitiram a geração de imagens sexualizadas de crianças em “roupas mínimas”. A França já havia feito acusações semelhantes contra a IA de Musk.

“O Grok possui um ‘modo picante’ que expõe conteúdo sexual explícito, incluindo material gerado a partir de imagens com aparência infantil. Isso é ilegal e inaceitável”, declarou Thomas Regnier, porta-voz da Comissão Europeia para assuntos digitais.

As mulheres continuam sendo alvo de constrangimentos no X, em um ritmo alarmante. Entre os dias 5 e 6, a IA do X produziu 6.700 imagens por hora identificadas como sexualmente sugestivas ou nuas, segundo um levantamento da agência Bloomberg, que citou a pesquisadora de mídias sociais e deepfakes, Genevieve Oh. Simultaneamente, Oh monitorou cinco sites que oferecem esse tipo de conteúdo (geralmente cobrando por isso) e constatou uma média de 79 novas imagens de nudez geradas por IA por hora nesse mesmo período.

A imagem de Giovanna*, que foi manipulada, havia sido recentemente publicada em seu perfil público no Instagram. Uma conta no X identificada como “@endricklamar__” repostou essa imagem e solicitou que o Grok a transformasse em uma de biquíni. O g1 conseguiu identificar as manipulações ao pesquisar termos relacionados no X, localizando pedidos feitos ao Grok pela conta “@endricklamar__”, incluindo um que mencionava o @ de Giovanna*.

Criado em junho de 2025, o perfil continha imagens de outras mulheres, cuja identidade não foi possível confirmar (veja os prints abaixo). Contudo, não foram encontradas manipulações semelhantes envolvendo homens.

Ao ser contatada, Giovanna* expressou seu espanto ao saber que sua imagem estava sendo utilizada sem consentimento e afirmou não conhecer a conta em questão. “Na foto original, estava de calça. Na versão manipulada pela IA, aparece o mesmo cenário, a mesma pose, tudo igual, mas com biquíni”, comparou. “Nunca pensei que isso poderia acontecer comigo, pois geralmente isso ocorre mais com artistas e influenciadores”, acrescentou a vítima, que já registrou uma denúncia sobre o post e pretende fazer um Boletim de Ocorrência.

O g1 tentou contato com o responsável pela conta @endricklamar__, mas recebeu apenas a resposta “??”. Algumas horas depois, ele excluiu as fotos e o perfil (veja na imagem abaixo). O g1 entrou em contato com o X, que respondeu com uma publicação pré-existente em sua página de segurança. Nela, a empresa afirma que “qualquer pessoa que utilize ou incentive o Grok a criar conteúdo ilegal enfrentará as mesmas consequências que quem enviar conteúdo ilegal” (leia a íntegra ao final da reportagem). O X não comentou diretamente a denúncia de Giovanna*.

Na Política de Uso da xAI, empresa de Musk responsável pelo Grok, está explicitamente proibido o uso da IA para “agir sem autorização em nome de terceiros”, “representar imagens de pessoas de forma pornográfica” e para “a sexualização ou exploração de crianças”. “Isso gera ainda mais responsabilidade por parte da plataforma, pois há uma política, mas ela não é cumprida”, comenta Patrícia Peck, advogada especialista em direito digital.

O g1 também encontrou alguns casos em que a IA ignorou pedidos de alteração da imagem (veja abaixo). Especialistas afirmam que a chamada “IA de nudez” (ou undressing) existe há anos e costumava ser oferecida como um serviço pago. A diferença no caso do Grok é, principalmente, a facilidade de acesso, tanto em termos financeiros quanto de uso, além da ampla distribuição desse tipo de conteúdo.

“Além da qualidade da imagem final, que está perigosamente boa em relação ao contexto do conteúdo tratado”, observa Cleber Zanchettin, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador na área de inteligência artificial. Para José Telmo, publicitário e professor de marketing digital da ESPM, a combinação entre acessibilidade e velocidade aumenta o risco de uso indevido. “A capacidade humana de utilizar a IA para fins errados costuma ser mais rápida do que a capacidade das empresas de bloquear esse tipo de uso”, afirma.

No Brasil, essa conduta é considerada criminosa. O problema não é apenas o uso da imagem real, mas a criação de uma falsa situação de intimidade, explica Patrícia. O Código Penal estabelece que a criação e compartilhamento de imagens íntimas não autorizadas pode resultar em punições severas.

A advogada ainda ressalta que, com a Lei nº 15.123/2025, o Código Penal passou a abordar explicitamente o uso de inteligência artificial em casos de dano emocional à mulher, com penas que variam de seis meses a dois anos de prisão, além de multa.

De acordo com a especialista, quem faz o “prompt”, ou seja, o pedido à IA, é considerado o autor direto do crime por usar a ferramenta para praticar injúria ou violar a intimidade da vítima. Aqueles que compartilham esse tipo de conteúdo também cometem crime. “O ato de replicar conteúdo íntimo falso é tão grave quanto o de criá-lo, pois expande o dano à vítima”, afirma.

Caso tenha sido vítima, veja o que fazer:
– Preserve as provas: não apague nada inicialmente. Capture prints do perfil do responsável, da imagem gerada, dos comentários e, principalmente, do URL (link) direto da postagem.
– Registre a autenticidade do material: se possível, utilize ferramentas de registro de prova digital com validade jurídica, como a ata notarial em cartório ou plataformas online, como o e-Notariado. Esses registros ajudam a evitar que as provas sejam contestadas.
– Denuncie o conteúdo na plataforma: utilize os mecanismos internos da rede social para relatar a violação. O Marco Civil da Internet exige a remoção rápida de conteúdo íntimo não consensual após notificação da vítima.
– Registre um boletim de ocorrência: procure uma Delegacia de Crimes Cibernéticos ou faça o registro pela internet, reunindo todas as provas coletadas.

O que diz o X: “Tomamos medidas contra conteúdos ilegais no X, incluindo Material de Abuso Sexual Infantil (CSAM), removendo-o, suspendendo permanentemente contas e colaborando com governos locais e autoridades policiais conforme necessário. Qualquer pessoa que utilize ou incentive o Grok a criar conteúdo ilegal enfrentará as mesmas consequências que quem enviar conteúdo ilegal. Para mais informações sobre nossas políticas, consulte nossas páginas de ajuda para as Regras X completas e a variedade de opções de fiscalização.”
*Giovanna é um nome fictício para proteger a identidade da vítima.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade