Para a Venezuela, o petróleo transcende a mera condição de produto de exportação; é a base de sua economia e a principal fonte de receita e moeda estrangeira necessária para a importação de alimentos, medicamentos e itens essenciais. Assim, a imposição de um bloqueio “total e completo” contra petroleiros que estejam sob sanção e que operem no país — anunciada recentemente pelos Estados Unidos — pode ter repercussões que vão além do governo de Nicolás Maduro, afetando amplas camadas da população venezuelana.
Especialistas alertam que uma ação dessa magnitude pode resultar em efeitos inesperados para os interesses de Washington. Trump comunicou sua decisão por meio das redes sociais, onde acusou o governo Maduro de financiar atividades ilícitas com petróleo “roubado”, incluindo narcotráfico, tráfico de pessoas, assassinatos e sequestros. As declarações vieram pouco depois que os EUA apreenderam um petroleiro na costa venezuelana, ação que Caracas qualificou de “roubo descarado” e “pirataria”. No último sábado (20), outro petroleiro foi apreendido.
Trump também afirmou na plataforma Truth Social que a Venezuela está “completamente cercada pela maior armada já vista na história da América do Sul”, prometendo que essa presença militar “continuará a crescer” e será “algo sem precedentes”. A Venezuela, que detém as maiores reservas de petróleo do mundo, repudiou a ordem de bloqueio, chamando-a de “ameaça grotesca” e alegando que visa à “apropriação” de suas riquezas.
Desde setembro, os EUA têm aumentado sua presença militar na costa venezuelana e no Caribe, com mais de 15 mil soldados e o maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford. Além disso, as forças armadas americanas têm realizado diversos ataques aéreos contra embarcações na região, resultando na morte de ao menos 99 pessoas. Trump alega que essa ação militar visa combater o narcotráfico, apontando Maduro como líder do chamado Cartel de los Soles. Contudo, analistas sugerem que o objetivo pode ser, na verdade, provocar uma mudança de regime na Venezuela.
Atualmente, a Venezuela produz cerca de 1 milhão de barris de petróleo bruto diariamente, o que representa aproximadamente 1% da produção global, um número que contrasta com os mais de 3 milhões de barris por dia que o país produzia em 1998, antes da ascensão de Hugo Chávez, mentor político de Maduro. A drástica queda na produção é resultado de uma combinação de má gestão, falta de investimentos, perda de mão de obra qualificada, corrupção e sanções internacionais. Portanto, o impacto de um bloqueio no mercado global seria limitado a curto prazo, mas para milhões de venezuelanos, as consequências poderiam ser mais severas e imediatas.
Quando Trump implementou um rigoroso pacote de sanções econômicas à Venezuela em 2018, a crise econômica e humanitária no país se intensificou. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia venezuelana contraiu cerca de 15% naquele ano, uma das maiores quedas de sua história recente. Christopher Sabatini, pesquisador sênior para a América Latina no Chatham House, em Londres, afirma que o bloqueio pode causar um “efeito ainda mais devastador” se for mantido. Ele acredita que o governo Trump espera que a retórica inflamatória usada nas redes sociais faça com que o círculo íntimo de Maduro se volte contra ele, promovendo uma transição rápida, mas adverte que, se isso não ocorrer, a crise se aprofundará, visto que uma significativa parcela das exportações venezuelanas depende de embarcações sancionadas.
Um relatório recente da Transparência Venezuela indicou que 41% dos petroleiros (40) que operavam na costa venezuelana em novembro eram embarcações sancionadas, parte da chamada frota de navios fantasmas. O serviço de rastreamento independente Tanker Trackers estima que cerca de 37 embarcações sob sanção do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA estavam operando em águas venezuelanas no início deste mês. O economista Francisco Monaldi, do Instituto Baker da Universidade Rice, ressalta que essa medida forçará o governo Maduro a oferecer maiores descontos no petróleo vendido através de canais informais, o que resultará em uma queda na receita e, consequentemente, na desvalorização do bolívar (moeda venezuelana) e no aumento da inflação. Caso a situação persista, uma queda significativa no PIB é esperada.
Especialistas também alertam que o bloqueio pode ter consequências negativas para a oposição venezuelana e para o próprio Trump. Se a medida não conseguir derrubar o governo Maduro e os venezuelanos começarem a sentir os efeitos, muitos poderão responsabilizar a oposição e Trump pela crise. O aumento da pobreza no país pode ainda impulsionar uma nova onda de migração para outros países da América Latina e para os Estados Unidos. Dados da ONU revelam que quase sete milhões de venezuelanos deixaram o país desde o início da crise, tornando-se uma das maiores crises migratórias do mundo.
O economista Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), acredita que o bloqueio pode, em última análise, prejudicar Trump politicamente se continuar. “Quase 90% das divisas da Venezuela vêm das exportações de petróleo, então um bloqueio como o anunciado poderia gerar mais pobreza e mais migração”, afirma Weisbrot. “Esse é um risco considerável para Trump: se a imigração venezuelana para os EUA aumentar significativamente, é provável que seus eleitores o responsabilizem nas eleições de meio de mandato do próximo ano.”