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Brasil encerra 2025 com desafios na diplomacia: adiamento do acordo Mercosul-União Europeia e destaques do Brics e COP30

1 de 1 Igarapé, no arquipélago do Marajó, no Pará – floresta Amazônica — Foto: Rafael Aleixo/g1

O ano de 2025 chega ao fim para a diplomacia brasileira com o adiamento da assinatura do tratado entre o Mercosul e a União Europeia. O Brasil teve um ano repleto de atividades internacionais, incluindo a realização das cúpulas dos Brics, no Rio de Janeiro (RJ), e da COP30, em Belém (PA), além de discussões sobre tarifas com os Estados Unidos.

Em entrevista ao g1, o embaixador Maurício Lyrio, que atuou nas negociações do Brasil nos Brics e na COP30 e é secretário de Clima e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, compartilhou sua perspectiva. Lyrio já ocupou cargos como secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros e fez parte da equipe de negociação do Mercosul.

Sobre o Mercosul, o Brasil presidiu o bloco no segundo semestre de 2025, com a expectativa de passar a presidência ao Paraguai no dia 20 de dezembro, acompanhada da assinatura do acordo com a União Europeia. Após 26 anos de negociações, o tratado busca facilitar o acesso a mercados, diminuir tarifas e fortalecer as relações comerciais entre a América do Sul e a Europa, mas ainda falta consenso na parte europeia.

A finalização das negociações foi adiada para 2026, e o Paraguai assumirá a liderança nas discussões do Mercosul no próximo semestre. Os países membros já concordaram em assinar o acordo, que foi concluído em dezembro de 2024, durante uma reunião em Montevidéu que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Apesar das dificuldades enfrentadas pela União Europeia para alcançar um consenso, Lyrio ressalta que o Mercosul continua com uma agenda externa ativa. O bloco já firmou mais de dez acordos comerciais ao longo de sua trajetória e, no terceiro mandato de Lula, estabeleceu um acordo com Singapura e finalizou as negociações com a União Europeia após um longo intervalo sem novos tratados.

“Esse acordo transcende o aspecto comercial; ele possui um significado político importante, especialmente em um contexto de crescente protecionismo. Duas regiões que se comprometem com a integração e a convergência, em vez do unilateralismo, enviam uma mensagem poderosa”, afirma Lyrio.

Para o diplomata, o principal desafio do Mercosul atualmente reside em promover um maior alinhamento entre os países-membros. Ele observa que as medidas unilaterais adotadas por potências impactam os países do Mercosul de maneira desigual e intensificam a pressão por negociações individuais, especialmente com os EUA, além da divergência ideológica entre os governos da região.

Ainda assim, Lyrio acredita que o Brasil tem se mantido em diálogo com líderes de diversas orientações políticas. Segundo ele, ampliar os acordos externos fortalece o bloco internamente, ao criar compromissos comuns. “Negociar em conjunto traz obrigações, o que é um elemento de fortalecimento para o Mercosul”, afirma.

Quanto à COP30, o Brasil continuará presidindo até a próxima conferência, marcada para o final de 2026. A edição realizada em Belém contou com a participação de mais de 42 mil pessoas de 195 países. A conferência terminou sem um acordo sobre combustíveis fósseis, enquanto as previsões científicas indicam um aquecimento global superior a 1,5°C, deixando claro que ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar as metas climáticas.

Apesar das críticas de cientistas e ambientalistas em relação aos resultados, Lyrio considera que, dentro do contexto geopolítico, houve avanços significativos. “No início do ano, não sabíamos se o regime climático sobreviveria. Ele não apenas sobreviveu, mas foi capaz de estabelecer novas obrigações”, destaca.

Durante a presidência do Brics, em um cenário de intensificação de conflitos globais, o embaixador afirmou que o Brasil buscou fortalecer a cooperação em áreas relacionadas ao desenvolvimento social e econômico. Um dos resultados mais significativos foi o lançamento de uma parceria para erradicar doenças socialmente determinadas, comuns em países em desenvolvimento, colocando a saúde no centro da agenda do grupo.

“Os laboratórios do Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul são robustos. Precisamos unir forças para enfrentar doenças que afetam nossos países, mas que não estão no foco da medicina global”, ressalta Lyrio.

A agenda climática também foi um tema central, com o Brasil trabalhando para construir uma posição unificada do Brics sobre as mudanças climáticas, o que facilitou as negociações da COP30. Lyrio afirma que os países do grupo foram aliados fundamentais do Brasil nos momentos mais críticos da conferência.

Outro avanço histórico foi a formulação da primeira posição conjunta do Brics sobre inteligência artificial, abordando tanto o potencial da tecnologia para o desenvolvimento em áreas como agricultura e saúde, quanto os riscos relacionados ao emprego e à desigualdade. “Conseguimos estabelecer uma posição comum sobre a necessidade de uma governança global para a inteligência artificial”, afirma.

Ao refletir sobre a imagem do Brasil no cenário internacional, Lyrio observa que o país recuperou sua liderança na busca por soluções coletivas para os desafios globais. O combate à fome, a agenda climática e a defesa do comércio internacional são pilares centrais da política externa brasileira.

De acordo com Lyrio, essa abordagem deve continuar em 2026, priorizando o desenvolvimento social, a redução das desigualdades, o acesso a financiamento para países em desenvolvimento e o enfrentamento da crise climática, temas que permanecerão no centro das atividades internacionais do Brasil enquanto o país mantiver a presidência da COP30.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade