O coletivo Retratistas do Morro, uma importante referência nacional na preservação da cultura afro-brasileira, comemora seus dez anos de atividades com uma grande exposição no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. Nomeada “Retratistas do Morro – Território de Memórias”, a mostra será inaugurada no dia 20 de dezembro, das 14h às 16h30, oferecendo uma programação gratuita que inclui uma caminhada guiada pelas obras.
Esse projeto inovador ocupa as ruas da comunidade com seis fotografias em grande escala, impressas em formato outdoor, que chegam a medir até 9 metros de altura, convertendo a paisagem urbana em uma impactante galeria a céu aberto. As imagens, que são históricas, raras e inéditas, são de renomados fotógrafos tradicionais, João Mendes e Afonso Pimenta, que têm documentado o cotidiano do Aglomerado da Serra desde a década de 1960.
As fotografias estão estrategicamente posicionadas em locais que carregam forte simbolismo, estabelecendo uma conexão direta com a história de cada retratado. A intenção é que, ao ocupar o espaço urbano em grande escala, o projeto devolva esses retratos ao seu verdadeiro lar, permitindo que a comunidade se reconheça e se celebre.
“Retratistas do Morro foi criado para assegurar que a favela conte sua própria história. Ao trazer as imagens de volta ao território original do projeto, estamos restituindo esses retratos ao olhar e às memórias da comunidade, além de estimular a imaginação coletiva de seus habitantes”, ressalta Guilherme Cunha, artista e idealizador do coletivo.
As seis instalações, que funcionam como galerias, oferecem um amplo panorama sobre a vida no Aglomerado. Nas Galerias 1 e 2, o público poderá reviver a memória dos Bailes Soul dos anos 1980, com fotografias de Afonso Pimenta que retratam moradores como Adaílson Pereira da Silva no Baile Soul do DCE e Elana dos Santos no Baile do Italiana, ambos em 1985. A Galeria 4 exibe outra famosa fotografia de Pimenta: o “Aniversário de 6 anos da Renatinha” (1987), uma imagem que já foi exibida em mostras nacionais e internacionais e hoje faz parte de acervos como o da Pinacoteca de São Paulo.
O trabalho de João Mendes, realizado em seu estúdio na Serra, também recebe destaque. A Galeria 5 apresenta o retrato de Sônia Cristina da Silva (1979) e uma imagem da Série Becas, dos anos 1980, que documenta as tradicionais formaturas infantis. Na Galeria 6, o foco é o retrato de João Cardoso dos Santos (1970) com seu black power, uma fotografia que, segundo ele, foi tirada para ser enviada como “carta” à sua namorada, que hoje é sua esposa.
A abertura da exposição é gratuita e acessível ao público, começando na Praça do Cardoso, às 14h, com uma celebração dos dez anos do projeto. Em seguida, haverá uma caminhada guiada que passará pelas seis obras, com a participação de moradores e a mediação de histórias e reflexões sobre os personagens, fotógrafos e a memória que as imagens representam.
Desde sua fundação em 2015, o Retratistas do Morro se dedica a investigar, preservar e divulgar a produção fotográfica realizada nas favelas, com um acervo que inclui cerca de 250 mil negativos dos fotógrafos João Mendes e Afonso Pimenta. O coletivo, composto por Guilherme Cunha, João Mendes, Afonso Pimenta, Kelly Cristina e Dona Ana Martins, busca reescrever a história da imagem brasileira, destacando a importância estética, documental e política da produção visual proveniente das favelas.