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Quando o Ícone Superou o Cinema: A Trajetória de Brigitte Bardot

A trajetória cinematográfica de Brigitte Bardot, que se estendeu de 1952 a 1973, pode ser segmentada em um início tumultuado como atriz coadjuvante, algumas produções que se tornaram verdadeiros fenômenos de bilheteira global, escassos trabalhos com renomados diretores do cinema francês, como Jean-Luc Godard, uma série de filmes de qualidade duvidosa e inúmeras tentativas de reerguer sua carreira. Após sua estreia, em pouco mais de três anos, ela participou de 17 filmes, muitos dos quais tiveram seu nome creditado posteriormente, a fim de capitalizar sobre sua crescente fama internacional. Nesse período inicial, seus únicos filmes dignos de nota (não necessariamente devido à sua performance) foram “Mais Forte que a Morte” (1953), ao lado de Kirk Douglas, e o épico “Helena de Troia”, dirigido pelo respeitado Robert Wise, onde ela interpreta apenas uma das escravas de Helena, vivida por Rossana Podestà.

O auge de Bardot como símbolo sexual ocorreu em 1956, com “E Deus Criou a Mulher”, um filme escrito e dirigido por Roger Vadim, com quem ela se casou. Sua colaboração nas telas começou antes, em três filmes anteriores, todos roteirizados por Vadim: “A Mais Linda Vedete” (1955), “Mademoiselle Pigalle” e “Desfolhando a Margarida”, todos lançados em 1956.

Nessa sequência, os personagens que ela interpretou eram mulheres ardentes que atraíam o desejo dos homens ao seu redor, especialmente em “Desfolhando a Margarida”, onde seu nome aparece em destaque nos cartazes. Bardot interpreta uma estudante parisiense que busca seduzir homens para se divertir.

Vadim foi desenvolvendo a ideia de uma personagem chamada Juliette, uma jovem órfã de 18 anos que vive em Saint-Tropez, descalça, em busca de amantes para satisfazer seus desejos sexuais. E a atriz perfeita para dar vida a Juliette estava ao seu lado.

Embora as cenas de nudez de Bardot sejam poucas, Vadim consegue infundir uma sensualidade intensa em cada gesto dela. A famosa cena em que dança em cima de uma mesa se tornou icônica ao longo das décadas.

O filme se transformou na maior bilheteira mundial de uma produção não americana naquele ano, um feito ainda mais impressionante considerando que a obra foi severamente editada pela censura em diversos países, com campanhas de instituições católicas contra sua exibição.

Nos anos seguintes, Vadim impulsionou a carreira de Bardot em um ritmo frenético, negociando sua participação em uma série de filmes, muitos dos quais com roteiros de sua autoria, sempre apresentando personagens que atraíam homens sedentos por sua companhia.

Essa sequência de produções incluía filmes de qualidade variada, mas foi suficiente para ampliar ainda mais a aura de ícone sexual de Bardot, culminando no convite para um projeto mais ambicioso: “Amores Célebres”, em 1961.

Dirigido por Michel Boisrond, este filme foi um grande sucesso em um novo gênero que começava a ganhar destaque no cinema francês: o longa-metragem episódico, como se fossem várias histórias curtas. Além de sua boa arrecadação, o filme ficou marcado por reunir o casal mais desejado da época: Brigitte Bardot e Alain Delon.

Entretanto, em 1962, ela enfrentou dois filmes decepcionantes: “Vidas Privadas”, um momento fraco na carreira do talentoso diretor Louis Malle, e “O Descanso do Guerreiro”, um filme confuso e fraco, também sob a direção e roteiro de Vadim. Contudo, Bardot se reergueu no ano seguinte com “O Desprezo”, sua melhor atuação, que a uniu a Jean-Luc Godard, o provocador do novo cinema francês. A trama gira em torno de um roteirista em crise conjugal durante a filmagem de um longa, trazendo uma nova perspectiva sobre o papel dos atores.

Apesar disso, sua filmografia continuou a alternar entre trabalhos bons e ruins. A comédia “As Malícias do Amor” pode ser considerada uma de suas piores produções após a fama, seguida de “Viva Maria!”, um filme de Louis Malle que, embora melhor que seu primeiro trabalho com o diretor, ainda era mediano.

Após um ano dedicado à música, lançando diversos álbuns e 13 videoclipes, incluindo dois em colaboração com Serge Gainsbourg, ela retornou ao cinema em grande estilo com “Histórias Extraordinárias”, uma produção de episódios dirigida por três grandes nomes: Federico Fellini, Louis Malle e Roger Vadim, adaptando contos de terror de Edgar Allan Poe. O filme também contou com Jane Fonda, então companheira de Vadim, e marcou o segundo e último encontro de Bardot com Alain Delon.

Entretanto, a atriz parecia destinada a nunca conseguir dois sucessos consecutivos. O filme “Shalako”, de 1968, que prometia muito ao reunir Bardot e Sean Connery, acabou sendo um fracasso, já que a audiência não se mostrou interessada em ver Bardot em um faroeste.

Antes de se aposentar precocemente em 1973, aos 39 anos, ela ainda estrelou mais sete filmes, todos de qualidade mediana. Seu penúltimo trabalho foi uma tentativa frustrada de repetir o sucesso de “E Deus Criou a Mulher”, em um projeto do ex-marido, onde Vadim simplesmente reciclou a ideia de seu maior êxito. Intitulado “Se Don Juan Fosse Mulher”, a protagonista se assemelha à Juliette, porém sem o frescor da juventude, em um momento em que o público já estava acostumado a filmes de forte apelo sexual. O resultado foi um fracasso.

Dessa forma, é possível identificar os grandes destaques da carreira cinematográfica de Brigitte Bardot: “E Deus Criou a Mulher”, “Amores Célebres”, “O Desprezo” e “Histórias Extraordinárias”. O restante de sua filmografia serve apenas como um pano de fundo para apreciar a beleza da atriz.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade