O dia 20 de novembro é um marco que homenageia Zumbi dos Palmares, um ícone da luta negra. Este feriado nacional, que celebra a contribuição de uma figura negra, só foi oficialmente estabelecido no ano passado, após mais de dez anos em que o Dia da Consciência Negra era apenas um ponto facultativo. Como é possível que, em um país com uma população negra tão significativa, tenha levado tanto tempo para reconhecer nossos heróis e narrativas?
Se essa realidade se reflete na política e na cultura, não é diferente no setor audiovisual. Recentemente, conversei com uma diretora negra que compartilhou uma verdade angustiante: “Produzimos um filme, ganhamos prêmios e percorremos o mundo, mas ao voltarmos para o Brasil, mal conseguimos lotar uma sala de cinema.” Essa declaração ecoou em minha mente.
Temos realizações notáveis, como Taís Araújo liderando novelas e filmes, Paulo Vieira criando séries de comédia de destaque na Globo, e a série “Cidade de Deus” na Max, que expande a narrativa do clássico. Igor Verde é uma força criativa nos streamings, e Gabriel Martins está levando o Brasil ao Oscar com “Marte Um”. Em 2024, pela primeira vez, três mulheres negras estarão simultaneamente no papel principal das principais novelas da Globo.
Avançamos significativamente em termos de representação. Nomes como Lázaro Ramos, Marton Olympio, Juliana Vicente e Emerson Dindo estão produzindo obras de grande qualidade. No entanto, a pergunta persiste: onde está nosso público para consumir esses conteúdos?
É como cultivar uma planta sem saber como cuidar dela. Conquistamos espaço na produção, mas esquecemos de construir uma ponte até aqueles que realmente precisam absorver essas histórias. A Globo se comprometeu a ter 50% de colaboradores negros até 2030, e, em 2024, mais de 40% dos elencos principais já eram compostos por negros. Isso é um feito significativo que deve ser celebrado.
Entretanto, a distribuição é crucial no audiovisual, especialmente para as comunidades que vivem nas periferias. O cinema e a televisão negra brasileira não podem se restringir a festivais ou a salas de exibição vazias em centros culturais. Nosso público está nas plataformas de streaming, no YouTube, assistindo PodPah e acompanhando influenciadores no TikTok. Precisamos ir até eles.
Não basta apenas produzir filmes visualmente impressionantes que ganham prêmios internacionais. É essencial desenvolver estratégias para que essas narrativas cheguem a periferias, quilombos e favelas, onde há uma audiência negra ávida por conteúdos que a representem.
Celebrar o 20 de novembro é homenagear Zumbi, mas também é um convite à reflexão sobre o presente. Garantir que cada menino negro veja Lázaro na tela e pense “eu também posso” e que cada menina negra se identifique com essas protagonistas é fundamental para a inclusão.
Há um musical americano intitulado “Passing Strange” que contém uma frase poderosa: “A vida é um erro que só a arte pode consertar.” Para a nossa comunidade preta, muitas vezes é na arte que encontramos representações de vitórias e realidades distantes das nossas. Precisamos nos ver.
Iniciar essa reflexão e transformação neste feriado, que celebra um dos líderes de um dos legados mais incríveis da cultura negra, é uma ação de imensa relevância. Viva Zumbi! Viva Dandara! Viva Ganga Zumba! Viva o audiovisual brasileiro!