A fase mais reflexiva e dolorosa da trajetória de Bruce Springsteen é o foco do longa-metragem “Springsteen: Salve-me do Desconhecido”, que estreou na última quinta-feira (30). A narrativa cinematográfica retrata a criação de um dos ícones do compositor, “Nebraska”, um álbum caseiro de 1982 que transformou o silêncio em expressão artística. O TOCA esteve presente na coletiva de imprensa com o diretor Scott Cooper e o ator Jeremy Allen White, que interpreta Springsteen no filme. Durante o evento, eles destacaram como a música, mais do que a narrativa, foi o elemento central emocional da produção.
“Este filme aborda um homem em busca de entender quanta honestidade ele consegue incorporar em sua música,” explicou Cooper. “‘Nebraska’ sempre me revela novas lições. Trata-se da coragem de introspecção e da necessidade de lidar com traumas, convertendo isso em canções.” O diretor, conhecido por “Crazy Heart” (2009), que conta a história de um cantor fictício de música country, confessou ter resistido por muito tempo a propostas de realizar biografias musicais. Sua perspectiva mudou após ler “Deliver Me From Nowhere”, de Warren Zanes, que analisa um aspecto específico da vida de Springsteen. “Nunca desejei fazer um filme que cobrisse toda a vida de alguém. O enfoque em ‘Nebraska’ é íntimo e delicado. O desafio era capturar um homem sozinho em um quarto, frente a um gravador de quatro canais,” compartilhou.
“Quando deixei de ver Bruce como uma divindade, consegui enxergar o homem”
Jeremy Allen White descreveu sua preparação para o papel como uma imersão no desconhecido. “Comecei com um sentimento de apreensão. Sabia o quanto Bruce é querido e quão pessoal é a conexão que os fãs têm com ele. No início, minha preocupação era com a aparência externa — a voz, os gestos, as imagens. Mas percebi que precisava me distanciar do ‘Bruce’ por um tempo para compreender o homem que existia entre 1981 e 1982.”
O ator, que também canta e toca no filme, revelou que o ponto de virada em sua interpretação aconteceu quando percebeu que a narrativa era mais sobre o processo criativo do que sobre o mito. “Quando comecei a ver Bruce Springsteen como um ser humano, e não como uma divindade, encontrei meu caminho,” refletiu. Essa conexão se intensificou no estúdio RCA de Nashville, onde algumas das cenas musicais foram gravadas. “Ficar sozinho naquele espaço, cantando letras que não eram minhas, tentando torná-las minhas, foi algo transformador. Foi ali que senti uma verdadeira ligação com Bruce.”
Jeremy recordou um dos momentos mais intensos ao falar sobre a gravação de “Born in the U.S.A.”. Essa cena foi filmada no Power Station, o estúdio original do álbum. “Não dá para apenas cantar essa música, você precisa gritar,” afirmou o ator. “Gravei por duas horas e fiquei sem voz por quatro dias.” O diretor enfatizou que não houve playback: “Ele cantou tudo. Não havia como simular aquilo.”
A música como reflexo
Para o diretor, o núcleo do filme não reside apenas na história do ícone musical, mas na interconexão entre som e emoção. A canção que mais o tocou durante a produção foi “My Father’s House”. “Meu pai me apresentou ‘Nebraska’, e ele faleceu um dia antes do início das filmagens. Portanto, essa música me atinge de forma pessoal. Trata de pais e filhos, de reconciliação e distância. A cada vez que a escuto, aprendo algo novo.”
Cooper mencionou que Bruce acompanhou atentamente todo o processo. “Ele me disse: ‘A verdade sobre você nem sempre é bonita. Eu sei que você não vai suavizar as arestas, porque nunca faz isso em seus filmes.’ E ele foi extremamente generoso, compartilhando coisas que nunca havia revelado a ninguém,” recordou Cooper. “Essa colaboração foi uma das experiências mais significativas da minha vida.”
Ao final da coletiva, Jeremy Allen White resumiu a mensagem que espera transmitir ao público: “No cerne dessa história, há uma busca por conexão, por comunicação, enraizamento e presença. Bruce almejava isso. Desejava uma vida simples, amor e família. A mensagem é clara: você pode estender a mão. Não precisa viver apenas na expectativa.”