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“Anaconda”: um presente de Natal inadequado para crianças travessas

“Anaconda” é um verdadeiro fiasco. Nenhum aspecto desta comédia protagonizada por Jack Black e Paul Rudd justifica sua existência. Os personagens carecem de carisma, a narrativa é incoerente, a direção é amadora e, pior de tudo, nenhuma das piadas consegue provocar risadas. Sorrir durante o filme se torna uma tarefa quase impossível. O único que sai ganhando com este novo “Anaconda” é o filme original, que, em uma comparação inevitável, acaba por parecer bem melhor.

Vale ressaltar que a expectativa não é alta. Lançado em 1997, “Anaconda” não é o “cult clássico” que muitos costumam rotular, mas sim uma versão inferior da fórmula “homem contra a natureza”, que se inclina mais para “O Ataque dos Vermes Malditos” do que para “Tubarão”. Ao contrário do (este sim) clássico cult com Kevin Bacon e Fred Ward, o filme de Luis Llosa nunca se tornou uma grande propriedade intelectual (suas continuações adotaram um tom trash) e não teve relevância pop.

O que realmente ajudou o original foi o humor involuntário, que se destacava pelo tom sério do elenco. Com estrelas como Jennifer Lopez, Ice Cube, Owen Wilson, Jon Voight e um Eric Stonestreet que deve ter ganhado o cachê mais fácil de sua carreira, o elenco interpretou seus papéis em um filme de terror sem deixar que o tom escorregasse para a paródia. Embora “Anaconda” não tenha sido feito para ser engraçado, ele acabou sendo redescoberto como uma comédia graças à ironia.

O diretor Tom Gormican, por sua vez, decidiu ignorar essas sutilezas do original e criou uma versão de “Anaconda” que é uma comédia simples. Afinal, o que poderia ser mais divertido do que caçar uma cobra gigante na floresta amazônica? Errado, pois o novo filme complica ainda mais a situação ao, assim como o trabalho anterior do cineasta, “O Peso do Talento”, se apoiar na metalinguagem na tentativa de borrar a linha entre cinema e realidade.

Griff (Paul Rudd) é um ator em crise que deixou Buffalo, Nova York, para tentar a sorte em Hollywood. Após perder até mesmo papéis como figurante, ele confidencia ao amigo Doug (Jack Black), um diretor frustrado que agora se dedica a produzir vídeos de casamento, que adquiriu os direitos de “Anaconda” – sim, o filme de 1997. Sua ideia é reunir uma equipe reduzida e filmar uma nova versão do “clássico” no local original, na Amazônia.

Acompanhados de Claire (Thandiwe Newton) e do cinegrafista Kenny (Steve Zahn), a dupla consegue um empréstimo e parte para a aventura, onde se depara com o “especialista em cobras” Santiago (Selton Mello) e se envolve em uma operação contra garimpeiros ilegais. Quando a cobra “domesticada” é acidentalmente destruída, eles partem em busca de uma substituta na selva, sem saber que agora estão na mira de uma anaconda.

Esse enredo simplório é intercalado por tentativas de nostalgia (que não funcionam) e um humor infantil (que também não se sustenta), com personagens e cenários surgindo e desaparecendo sem lógica. Gormican é incapaz de criar uma cena coerente, alternando aleatoriamente cenários, locações, iluminação e até mesmo a noção de dia e noite, às vezes em uma única sequência. Os ataques da cobra são desorganizados e mal executados, tornando impossível entender a ação. A impressão é que o filme foi feito de forma improvisada.

Parece que o elenco é quem realmente se diverte. Diferente do “Anaconda” de 1997, que teve algumas filmagens no Brasil, a nova produção levou todos para a Austrália, e o fato de estarem longe de casa pode ter ajudado a criar laços entre eles. Enquanto Black e Rudd repetem suas personas habituais, Steve Zahn traz uma figura mais excêntrica, e Selton Mello se conecta com o espírito do filme e seus colegas, criando um personagem simpático e à vontade.

No entanto, isso é insuficiente para salvar “Anaconda”. Se nem Nora Ephron conseguiu fazer a metalinguagem funcionar em sua versão de “A Feiticeira” (lançada pelo mesmo estúdio em 2005), Tom Gormican precisaria de uma dose extra de criatividade para realizar o filme que tinha em mente. E mesmo com toda a boa vontade do mundo, não há nada aqui que se compare à grandiosidade alcançada quase 30 anos atrás, quando Jon Voight, expelido do ventre da cobra em plena digestão, piscou para a plateia. Isso é cinema de verdade!

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade