“Até que a morte os una.” Essas palavras, proferidas com romantismo em uma cerimônia matrimonial, ganham uma nova e sombria interpretação neste inquietante filme de terror, estrelado pelo casal Dave Franco e Alison Brie. Juntos há quase dez anos e sem enfrentar grandes turbulências, o que é quase um milagre no contexto de Hollywood, os atores dão vida a um casal que se vê em um momento de incerteza em sua relação – uma situação que se complica quando seus corpos parecem se fundir. Uma piada cruel levada às suas últimas consequências.
Ao traçar um paralelo entre um relacionamento tóxico e um romance que já perdeu seu brilho há muito tempo, o diretor Michael Shanks, em sua estreia no longa-metragem, mergulha de maneira inteligente no universo do terror – especificamente no subgênero do body horror, onde transformações físicas aterrorizantes se tornam o motor da narrativa. Após “A Substância” levar o grotesco a uma indicação ao Oscar, seu timing não poderia ser mais oportuno.
“Conectados” se beneficia da entrega de Franco e Brie, dois intérpretes experientes que conferem credibilidade a um conceito que, embora absurdo, é fundamentado no desgaste real que casais enfrentam em um beco sem saída conjugal. A trama sobrenatural intensifica momentos que geram medo ao encontrar ecos da vida real.
É exatamente em meio a uma crise que Tim Brassington (Dave Franco) e Millie Wilson (Alison Brie) decidem deixar a agitação de Nova York para se estabelecer no interior, onde Millie aceita um emprego como professora de inglês em uma escola primária. A mudança é motivada não apenas pela nova posição de Millie, mas também pelo crescente isolamento de Tim, que se tornou emocionalmente distante após a perda dos pais e enfrenta frustrações em sua carreira musical que nunca se concretizou. Enquanto as conquistas de Millie parecem impulsioná-la, Tim se afunda cada vez mais em autopiedade e depressão.
Durante uma caminhada em uma trilha próxima à nova casa, cercada por uma floresta, o casal cai em um poço que abriga os vestígios do que parece ser um antigo templo. Com uma tempestade lá fora e sem sinal de celular, eles são forçados a passar a noite no local, até mesmo bebendo de uma água do poço que não é nada saudável. Ao amanhecer, conseguem escalar para fora e seguir com suas vidas. Ou quase isso.
Nos dias subsequentes, Tim começa a vivenciar episódios em que sente uma atração irresistível – e física – por Millie, e sempre que seus corpos se tocam, parecem se fundir em uma massa de carne. Essa atração toma um rumo sobrenatural quando eles se veem incapazes de manter distância, independentemente dos obstáculos entre eles, levando-os a tomar medidas drásticas, incluindo doses massivas de relaxantes musculares e o uso sangrento de uma serra elétrica.
“Conectados” traça paralelos entre codependência e identidade através do horror físico, onde os corpos se tornam objetos fluidos e brutalmente transmutáveis, refletindo a rotina nem sempre ideal de um casamento com a força visual do terror mais grotesco. Essa combinação ressoa com a exposição de semelhanças entre o fantástico e o cotidiano que permeia obras contemporâneas do gênero: é o medo de ficar preso em um relacionamento que já chegou ao fim, traduzido em uma possibilidade real e aterrorizante.
Entretanto, Michael Shanks carece de um pouco mais de firmeza para conectar suas ideias de maneira coesa. Sua direção, que é eficaz em construir a atmosfera sufocante vivida pelo casal, não proporciona espaço para uma reflexão mais profunda. “Conectados” é direto, mas nunca se aprofunda, sem sutileza ao explorar as nuances do que significa comprometer-se em um casamento, focando mais na influência de um lugar amaldiçoado do que nas relações interpessoais.
O filme também não consegue evitar um erro comum no cinema de gênero contemporâneo: a necessidade de explicar detalhadamente o que está acontecendo e por quê. Amarrar a narrativa ao sobrenatural com uma justificativa, mesmo que sutil, diminui a imprevisibilidade da obra e a confiança na capacidade do público de tirar suas próprias conclusões. Ao final, “Conectados” apresenta uma última imagem que, em vez de causar impacto, acaba sendo risível.
Apesar de suas falhas, “Conectados” não hesita em seguir suas intenções e encontra seu maior trunfo na dedicação de Alison Brie e Dave Franco. Não apenas na construção dramática de seus personagens, que se sentem ameaçados pela possibilidade de uma vida a dois estagnada, mas também em seu comprometimento com os aspectos mais absurdos da trama: é impossível não se contorcer na cadeira quando a fusão deixa de ser uma mera sugestão para se tornar uma realidade. Esses arrepiantes momentos ainda são a essência de um bom filme de terror.