A partir desta semana, “Amores Materialistas”, o mais recente projeto da diretora Celine Song, indicada ao Oscar por “Vidas Passadas”, faz sua estreia nas salas de cinema brasileiras. Com um elenco de peso que inclui Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans, o filme chega ao público envolto em uma campanha publicitária que sugere ser uma comédia romântica convencional — mas o que se desenrola na tela é bem diferente.
A estratégia de marketing da A24 e da Sony apostou no brilho dos astros Pedro Pascal e Chris Evans para criar uma narrativa de competição amorosa. Cartazes com as hashtags #TeamPedro e #TeamChris evocam a trama de diversas comédias românticas clássicas, como “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), onde a protagonista se vê dividida entre dois pretendentes.
Entretanto, “Amores Materialistas” desafia essa expectativa. A história gira em torno de Lucy (Johnson), uma casamenteira que se vê em um dilema entre Harry (Pascal), o “par perfeito” — ou como o filme o descreve, um “unicórnio” — e seu ex-namorado John (Evans), cuja principal “deficiência”, segundo a narrativa, é a sua instabilidade financeira.
Contrário ao que a campanha publicitária sugere, o filme não se encaixa no molde de uma comédia romântica tradicional, nem se aprofunda em um drama pesado. Ao invés disso, trata-se de uma reflexão introspectiva que questiona os valores que guiam nossas decisões amorosas. Celine Song, que se inspirou em sua experiência como casamenteira em Nova York para o roteiro, investiga como a busca por relacionamentos muitas vezes se torna uma questão de critérios materiais — como riqueza, aparência e status —, à custa de conexões verdadeiras.
Outro aspecto que afasta o filme do rótulo de comédia é a construção do personagem Harry, interpretado por Pedro Pascal. Se o compararmos a Daniel Cleaver, de “Bridget Jones”, por exemplo, ele poderia facilmente se tornar um estereótipo. Contudo, Song se esforçou para desenvolver Harry de forma a não ser caricatural. “Era fundamental que Harry não fosse um vilão ou uma figura cômica”, afirma. “Eu precisava que ele fosse genuinamente encantador. Quando se apresenta um ‘Sr. Perfeito’, a tendência é que o público o odeie. Mas a vulnerabilidade trazida por Pedro faz com que nos sintamos atraídos e cativados por ele. Ele é como uma ferida exposta.”
O título original, “Materialists”, carrega uma conotação mais profunda do que a versão brasileira. A escolha da palavra “materialistas” sublinha o núcleo do debate que o filme propõe.
Celine Song não oferece soluções simples. Ao invés disso, convida o público a refletir sobre suas próprias prioridades amorosas. Lucy, por exemplo, não é mostrada como uma pessoa interesseira, mas sim como alguém que, devido a traumas de um relacionamento familiar complicado, busca segurança financeira como uma forma de proteção.
“Amores Materialistas” se destaca por sua abordagem sóbria. Em entrevistas, a diretora enfatiza que não tinha a intenção de criar uma narrativa escapista. “Queria tratar diretamente de encontros e amor, sem desviar do assunto ou criar uma ficção que escape à realidade”, declarou. Para ela, ao falar de romance, as pessoas costumam pensar imediatamente em comédias românticas, desconsiderando a seriedade do tema. “Existem maneiras sutis de discutir encontros e amor que muitos consideram inofensivas. Não temos essa mesma percepção em relação a um filme de guerra violento ou um drama de época. Então, por que tratamos filmes românticos como se não fossem sérios?”
Assim, “Amores Materialistas” pode ser visto como “um drama romântico social incisivo e sério”, conforme a descrição da Variety. O The New York Times destacou o filme como “formalmente inventivo, emocionalmente instigante e totalmente maduro”. A obra nos leva a refletir sobre a forma como conduzimos nossos “amores contemporâneos”.
Para Celine Song, a questão central de “Amores Materialistas” é universal. Todos possuem crenças sobre suas vidas amorosas. Para mim, essa é a conversa mais fascinante que já tive sobre qualquer assunto. Se você quiser conhecer alguém, pergunte sobre sua vida amorosa.