Um estudo inovador realizado no Brasil demonstrou a efetividade e a viabilidade da utilização do cabotegravir injetável de ação prolongada (CAB-LA) como estratégia de prevenção ao HIV, conhecida como Profilaxia Pré-exposição (PrEP) de longa duração. Diferentemente da PrEP oral, atualmente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e que exige a ingestão diária de comprimidos, o método injetável requer apenas uma aplicação a cada dois meses. Os resultados, publicados em 24 de setembro na revista científica The Lancet HIV, indicam maior proteção e adesão por parte dos usuários, contribuindo para uma redução significativa na incidência de novas infecções pelo vírus.
O estudo, intitulado ImPrep CAB Brasil, foi conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Ministério da Saúde, a agência internacional de saúde global Unitaid e a Organização Mundial da Saúde (OMS). A pesquisa acompanhou 1.201 participantes, incluindo homens gays, homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas não binárias, além de homens e mulheres transgêneros, com idades entre 18 e 30 anos. Os voluntários foram recrutados entre outubro de 2023 e setembro de 2024, em seis cidades brasileiras, por pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), em unidades de saúde públicas que oferecem o serviço de PrEP do SUS.
A implementação do CAB-LA no estudo teve início no mesmo dia da primeira consulta, e a adesão às aplicações injetáveis foi alta, atingindo 92%. Essa taxa demonstra uma aceitação significativa dessa tecnologia no contexto do sistema público de saúde. Além disso, os participantes mantiveram 90,8% dos dias de acompanhamento cobertos pela PrEP de longa duração, uma proporção bastante superior aos 35% observados no uso da PrEP oral, reforçando a maior persistência e proteção oferecidas pelo método injetável.
No que diz respeito à incidência de HIV, a pesquisa revelou que o grupo que utilizou o CAB-LA apresentou apenas três novas infecções durante o período de acompanhamento, o que corresponde a uma taxa de 0,20 por 100 pessoas por ano. Em contrapartida, a coorte que utilizou a PrEP oral registrou 18 novas infecções, com uma taxa de 1,48 por 100 pessoas por ano. Esses dados demonstram uma redução expressiva na incidência do vírus entre os usuários do método de ação prolongada, reforçando sua potencialidade de ampliar a proteção contra o HIV.
Durante a 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada em julho no Rio de Janeiro, o Ministério da Saúde avaliou a possibilidade de incorporar o cabotegravir injetável ao rol de tecnologias disponíveis no SUS. A análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) deverá considerar as evidências científicas fornecidas por estudos como o ImPrep CAB Brasil, que reforçam a eficácia clínica e a viabilidade de implementação do método na rede pública de saúde.
A pesquisa caracteriza-se como uma coorte híbrida de implementação de tipo 2, que combina a observação epidemiológica de longo prazo com a análise da implementação de estratégias de saúde. Essa abordagem permite avaliar tanto a eficácia clínica quanto a praticidade de inserção do método na rotina do sistema público, fornecendo subsídios essenciais para futuras decisões de políticas de saúde.
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