O universo dos reality shows não tem limites, e sempre há novas abordagens a serem exploradas. Em um momento em que a não monogamia ganha destaque, o Globoplay mostrou-se astuto ao criar Terceira Metade, um formato que reúne casais em busca de um terceiro elemento para enriquecer suas relações.
Apresentado com leveza e carisma pela atriz Deborah Secco, uma das mais proeminentes defensoras do amor livre, Terceira Metade se assemelha a uma versão mais ousada de Casamento às Cegas, da Netflix. Enquanto neste último o foco reside nos dilemas românticos, Terceira Metade oferece espaço para discutir sentimentos e explorar arranjos não convencionais de relacionamentos, mas o que realmente prende a atenção do público são as cenas provocantes entre os casais e seus potenciais interessados.
O programa acerta ao abordar questões de comportamento e sexualidade com o auxílio da sexóloga Regina Navarro Lins, que consegue levantar temas polêmicos sem recorrer a militâncias ou didatismos excessivos. No entanto, a série comete um erro grave ao excluir a comunidade gay do ambiente de liberdade que promete.
Quem vive a realidade da comunidade LGBTQIPNA+ sabe que a não-monogamia é uma prática comum entre os homens gays, frequentemente abordada de forma natural. Portanto, a ausência de um casal masculino no elenco de Terceira Metade é uma falha que remete a um conservadorismo desnecessário e a resquícios de uma sociedade patriarcal que tende a aceitar e até fetichizar relacionamentos entre mulheres, enquanto discrimina as relações entre homens.
Embora dois dos quatro casais incluam homens bissexuais e haja um casal de lésbicas, a falta de um casal gay revela uma limitação que, embora represente um avanço em comparação a outros reality shows românticos, como Casamento às Cegas — que até agora não apresentou nenhum casal do mesmo sexo — deixa a impressão de que Terceira Metade é liberal, mas somente até certo ponto. A liberdade amorosa exibida no programa não reflete plenamente a diversidade existente na sociedade. Teria sido interessante ver um pouco mais de audácia para que Terceira Metade realmente se lançasse no universo da não-monogamia. Uma pena.