O episódio inaugural da série documental “Gloria” (Globo), que explora a trajetória de Gloria Maria, trouxe à tona depoimentos valiosos sobre a renomada jornalista. Uma das intervenções foi de Ana Davis, a primeira mulher negra a ocupar a bancada de um telejornal no Brasil.
Ana compartilhou suas impressões sobre Gloria, destacando: “Quando ela apareceu, fiquei extremamente feliz. Embora fôssemos colegas, não éramos íntimas.” Em meio a risos, ela recordou o dia em que comunicou a Gloria sua saída da emissora. “Disse a ela: ‘Estou partindo, tenho penas mais longas que as suas. Você fica na Globo e eu vou explorar o mundo’. E, ironicamente, foi o contrário que aconteceu.”
Ela expressou sua admiração por Gloria, ressaltando: “Aquele brilho intenso que ela tinha porque era uma mulher negra, cheia de vida, energia e inteligência. Eu pensei: essa mulher vai se destacar, e ela realmente fez isso.” Ana elogiou a audácia de Gloria, afirmando: “Ela era ousada, e eu achava isso maravilhoso. Eu não tinha coragem de ser assim, mas admirava sua postura.”
O episódio também apresentou uma lembrança de Gloria sobre um incidente em 1980, quando, ao tentar entrar no Rio Othon Palace para visitar uma amiga, foi informada de que “negras não eram bem-vindas.” A jornalista não hesitou em registrar uma queixa sobre o acontecido. Em suas palavras, “Foi um momento de imensa dor. O racismo machuca a alma. Aqueles que não são negros jamais compreenderão isso.”
Pedro Bial também comentou sobre a relevância da denúncia de Gloria, afirmando: “A importância desse ato é difícil de mensurar. Não era apenas alguém, mas uma mulher negra, assim como tantas outras.”
A série oferece um retrato abrangente de Gloria Maria, celebrando sua coragem como jornalista ao relembrar coberturas históricas, como a queda do Elevado Paulo de Frontin em 1971, e entrevistas impactantes, incluindo uma com um traficante carioca nos anos 1980. Também destaca sua luta como mulher negra pioneira, recontando o emocionante relato de sua experiência de ser barrada em um hotel no Rio devido à cor de sua pele — uma denúncia que ganhou visibilidade nacional. Além disso, a série revela sua faceta como mãe dedicada, apresentando cartas íntimas para suas filhas, Maria e Laura, nas quais compartilha seus sentimentos sobre a adoção. “Quem é essa menina?”, questiona Gloria ao recordar seu primeiro encontro com uma delas.
Com quatro episódios exibidos aos domingos, esta produção é parte das celebrações pelos 60 anos da emissora e revisita os 52 anos de carreira de Gloria, sublinhando sua importância para a televisão brasileira. O projeto conta com depoimentos de personalidades como Djavan, Maria Bethânia, Roberto Carlos, Pedro Bial, Mano Brown, Emicida, Maju Coutinho e Muniz Sodré, além das filhas de Gloria, Maria e Laura. A narrativa abrange desde sua primeira transmissão ao vivo em 1971 até suas reportagens em mais de 100 países, destacando coberturas históricas como a Guerra das Malvinas e entrevistas com ícones internacionais como Michael Jackson e Madonna.