A recente entrevista de Gloria Perez, publicada pela Folha de São Paulo no dia 10, gerou um grande alvoroço. Durante a conversa com o repórter Matheus Rocha, a autora fez uma afirmação contundente: a censura moral que recai sobre as novelas atualmente supera a censura imposta durante a ditadura militar. Essa declaração, sem dúvida, é impactante e polêmica.
Entretanto, a comparação pode soar exagerada, especialmente quando se considera a brutalidade e a repressão exercidas pelo governo militar para silenciar a liberdade de expressão dos artistas. O ponto realmente relevante na fala de Gloria Perez, que acabou ofuscado pela controvérsia, é que a transformação de conflitos humanos em pautas reduziu a dramaturgia a uma fórmula previsível, suprimindo sua capacidade de provocar reflexões.
Nos últimos anos, muitas novelas têm optado por evitar temas contemporâneos delicados, temendo a reação negativa nas redes sociais. No passado recente, obras de Gloria Perez e de outros autores como Manoel Carlos abordavam conflitos humanos que impulsionavam debates sociais. Por exemplo, “Mulheres Apaixonadas” (2003) fez o Brasil discutir a violência doméstica e os maus-tratos a idosos, enquanto “Explode Coração” (1995) destacou o desaparecimento de crianças.
Essas novelas conseguiam estabelecer um diálogo significativo com espectadores de diversas classes sociais e níveis educacionais. Elas tiveram a audácia de tratar questões comportamentais por meio do melodrama, deixando uma marca indelével na memória do público.
Atualmente, temas que geram engajamento nas redes sociais estão sendo incorporados à teledramaturgia de maneira que desrespeita uma regra fundamental da narrativa: a história deve prevalecer e não se submeter a uma causa específica. Um enredo rico em relações humanas e conflitos reconhecíveis é o que permite que assuntos complexos sejam abordados com profundidade e sensibilidade, oferecendo ao público a oportunidade de entender e assimilar essas questões.
Na tentativa de agradar às redes sociais, muitos roteiristas adotam um tom didático, colocando suas tramas a serviço de uma pauta. Isso resulta em uma desconexão emocional entre o público e a história, levando à rejeição desse didatismo insatisfatório.
Gloria Perez pode não ter um estilo unânime, mas seu histórico comprova que ela está absolutamente correta ao defender o direito de criar novelas que provoquem e até desagradem. Foi essa ousadia que permitiu à teledramaturgia brasileira produzir obras memoráveis, como “Barriga de Aluguel” (1990) e “O Clone” (2001).