O volume médio diário de negociações de Brazilian Depositary Receipts (BDRs), que compõem o índice BDRX da B3, apresentou um crescimento de 29,5% entre janeiro e setembro de 2026, atingindo R$ 853,94 milhões, conforme levantamento realizado pela Comdinheiro/Nelogica. Este aumento reflete uma mudança significativa no perfil do investidor brasileiro, que demonstra maior interesse por empresas internacionais, especialmente aquelas ligadas à inteligência artificial (IA) e à infraestrutura tecnológica, além de buscar diversificação geográfica diante das incertezas no mercado doméstico.
O crescimento do volume de negociações evidencia uma tendência de amadurecimento no mercado de BDRs, considerado por especialistas como um indicativo de maior sofisticação e diversificação dos investidores locais. Adriano Martins, sócio e private banker na Blue3 Investimentos, destaca que esse movimento reflete uma busca por exposição a setores em alta, como semicondutores e IA, além de um aumento na participação de empresas listadas exclusivamente na bolsa americana, como Nubank, XP e Mercado Livre. Segundo Martins, a dona do cartão de crédito “roxinho” contribuiu com mais de R$ 45 milhões ao volume diário negociado, ficando atrás apenas da Micron Technology, enquanto o Mercado Livre movimentou aproximadamente R$ 30,87 milhões.
Martins também aponta que a fuga para o dólar, motivada pelo cenário de incerteza fiscal e macroeconômica no Brasil — marcado pelo aumento da dívida pública e pelos gastos do governo — tem impulsionado o uso dos BDRs como um “porto seguro” de liquidez e proteção cambial na B3. Essa preferência por ativos internacionais, segundo ele, reforça a maturidade do mercado de BDRs como instrumento financeiro, especialmente após a democratização promovida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que ampliou o acesso a uma parcela mais ampla de investidores.
Dentre os principais destaques do levantamento, está a performance da Micron Technology (MUTC34), fabricante norte-americana de semicondutores e chips de memória. O volume médio diário negociado do BDR da companhia cresceu expressivos 602,5% no período, representando 40,4% do aumento total do volume diário dos papéis que compõem o índice BDRX. Em valores absolutos, a Micron adicionou R$ 94,35 milhões à média de negociação diária, impulsionada pela expansão da infraestrutura de IA, uma área que demanda memórias de alta largura de banda, como as memórias HBM produzidas pela própria Micron, essenciais para alimentar unidades de processamento gráfico (GPUs) utilizadas na execução de operações de inteligência artificial.
Evandro Bertho, sócio fundador da Nau Capital, avalia que a maior acessibilidade às plataformas de investimento e o avanço na educação financeira têm incentivado a diversificação internacional. Segundo ele, esse movimento é saudável e esperado, uma vez que há uma tendência de aumento na exposição às BDRs ao longo dos anos, embora esse crescimento de volume ocorra de forma mais acelerada do que o aumento do número de investidores ativos. Bertho observa que o ritmo de negociações mais intenso pode indicar uma maior frequência de operações por parte dos investidores já existentes, sem necessariamente refletir uma entrada proporcional de novos recursos no mercado de BDRs.