O Serviço de Segurança do Reino Unido, MI5, emitiu nesta quarta-feira, 30 de outubro, um alerta inédito alertando sobre a participação de acadêmicos britânicos em projetos de pesquisa financiados por uma organização chinesa vinculada ao governo de Pequim, com o objetivo de obter vantagens na área de inteligência artificial e outras tecnologias sensíveis. A denúncia aponta que mais de 100 pesquisadores no Reino Unido colaboraram com o Instituto Geral de Pesquisa Tecnológica da China (CGTRI), uma entidade que mantém estreitos laços com o Ministério da Segurança do Estado chinês (MSS), o serviço de inteligência civil de Pequim.
Segundo o documento divulgado pelo MI5, o principal propósito do CGTRI é financiar estudos acadêmicos que possam aprimorar as capacidades técnicas do MSS, especialmente em áreas como inteligência artificial, segurança cibernética, sistemas de comunicação secretos e esteganografia, uma técnica que oculta informações dentro de mensagens ou objetos. O alerta ressalta que essa atividade tem potencial de fortalecer a capacidade de espionagem do serviço de segurança chinês, representando uma ameaça direta à segurança nacional do Reino Unido.
O documento destaca que essa é a primeira vez que o MI5 publica um alerta de forma aberta e independente sobre atividades de espionagem chinesas envolvendo o setor acadêmico. A denúncia ocorre em um momento de crescente tensão entre o governo britânico e Pequim, que tenta equilibrar esforços de cooperação internacional com a China e a preocupação com ações de espionagem e influência estrangeira. Pequim, por sua vez, rejeitou as alegações, classificando-as como infundadas e como meras invenções.
O alerta também aponta que muitos acadêmicos e instituições britânicas podem ter colaborado de boa-fé com o CGTRI, muitas vezes sem conhecimento de sua ligação com o MSS, às vezes sendo confundidos com a Academia Chinesa de Tecnologia Geral (CAGT). Entretanto, o MI5 deixou claro que aqueles que continuarem a manter relações com a organização chinesa poderão ser alvo de processos judiciais sob a nova Lei de Segurança Nacional do Reino Unido, aprovada em 2023, que amplia os poderes de combate à espionagem estrangeira e atividades hostis de Estados.
O ministro da Segurança, Dan Jarvis, comunicou que enviou cartas a todos os reitores das universidades britânicas, solicitando o encerramento de quaisquer vínculos com a organização chinesa. Em comunicado, ele afirmou que o alerta evidencia as tentativas do governo chinês de se beneficiar secretamente do conhecimento e pesquisa de acadêmicos britânicos, colocando em risco a segurança do país e de seus aliados. Jarvis ressaltou a importância das parcerias internacionais para o avanço das instituições de ensino e pesquisa, mas destacou que o Reino Unido adotará medidas firmes contra ameaças de espionagem.
Nos últimos anos, as relações entre o Reino Unido e a China têm se mostrado cada vez mais complexas. Enquanto o governo britânico busca fortalecer laços comerciais e aprovou planos para a construção da maior embaixada chinesa na Europa, em Londres, também tem alertado repetidamente sobre as atividades de espionagem chinesas e tentativas de minar o sistema democrático britânico. No ano passado, o diretor-geral do MI5, Ken McCallum, afirmou que espiões chineses representam uma ameaça diária à segurança nacional, incluindo ações como a criação de anúncios de emprego falsos para atrair profissionais britânicos e obter informações confidenciais.
Em novembro, a agência também alertou parlamentares sobre agentes chineses que buscavam influenciar suas atividades, fingindo ser recrutadores ou representantes de empresas. Além disso, em junho, integrantes da aliança de inteligência Five Eyes, composta por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, divulgaram um alerta sobre o uso de plataformas de emprego online pelos espiões chineses para recrutar pessoas com acesso a informações sensíveis. A embaixada da China em Londres rejeitou as acusações, classificando o alerta como “totalmente inventado” e uma “calúnia maliciosa”.