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Aumento da inadimplência atinge recorde no Brasil impulsionado por juros elevados e renda pressionada

•Ilustração gerada por IA

O país registrou um recorde histórico de inadimplência no sistema financeiro, impulsionado por fatores como o aumento das taxas de juros e a pressão sobre a renda das famílias. Dados do Banco Central (BC) indicam que, em julho, a inadimplência atingiu 4,88% da carteira de crédito, o maior patamar desde o início da série histórica em março de 2011. A inadimplência específica das operações com pessoas físicas chegou a 5,81%, também recorde na série.

O aumento do endividamento ocorre em um contexto de elevação dos custos de crédito, após um período de juros baixos. Durante a pandemia, o BC reduziu a taxa básica de juros, a Selic, chegando a 2% ao ano, com o objetivo de estimular a economia em meio à crise global. Essa política facilitou o acesso ao crédito, levando a uma expansão significativa na concessão de empréstimos, que foi alimentada por uma demanda crescente por parte da população.

Segundo o presidente do BC, Gabriel Galípolo, o crescimento do endividamento é típico de períodos em que as taxas de juros estão mais baixas, pois juros elevados tendem a inibir a contratação de crédito. Ele destacou que a expansão do crédito durante a pandemia foi consequência de uma política monetária mais frouxa, motivada pelos receios de uma retração econômica global. Nesse período, a crise levou ao fechamento de negócios e à paralisação de atividades, tornando necessário o estímulo por meio do aumento do crédito.

Após esse período de estímulo, o cenário mudou com o retorno da inflação, que levou o BC a elevar a Selic a 13,75% ao ano, permanecendo nesse patamar por mais de um ano. Em meados de 2023, houve um afrouxamento na política monetária, com a Selic recuando para 12,75%, mas ela voltou a subir e atingiu 15% ao ano em junho de 2025. Essa alta no custo do crédito tem impactado diretamente a inadimplência, que subiu em consequência do aumento das taxas de juros.

Especialistas apontam que a origem do problema está na fase de juros baixos, que incentivou a demanda por crédito, muitas vezes por linhas emergenciais com taxas elevadas e riscos maiores, especialmente para as pessoas físicas. Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), destaca que esse crescimento na inadimplência reflete também uma má distribuição de renda, uma vez que muitos brasileiros recorrem ao crédito para suprir a insuficiência de recursos.

Dados do BC mostram que o endividamento das famílias, medido pela relação entre o valor esperado de pagamento das dívidas e a renda mensal, permanece em níveis recordes. Além disso, o avanço de linhas de crédito emergenciais, com juros mais altos, contribuiu para esse aumento da inadimplência. Mesmo com esforços do governo, como o programa Novo Desenrola Brasil, para reduzir o endividamento, a inadimplência continua elevada, indicando que o problema é estrutural.

O impacto do aumento da inadimplência também se reflete nos balanços de grandes bancos brasileiros. O Bradesco, por exemplo, reconheceu um ambiente de inadimplência pressionada e maior risco na carteira de crédito, embora afirme que o crescimento da carteira ocorre de forma segura e dentro das estimativas. Heverton Peixoto, CEO da Omni&Co, avalia que, apesar da solidez das instituições financeiras, o risco de uma elevação persistente na inadimplência pode elevar o prêmio de risco na concessão de novos empréstimos, dificultando a expansão do crédito produtivo.

Outro fator que agrava o cenário é o elevado endividamento do setor público, que mantém o custo do crédito alto ao competir por recursos disponíveis no mercado financeiro. Marcelo Fonseca, da CVPar Investimentos, alerta que o déficit fiscal recorrente exige um financiamento massivo do setor público, que absorve grande parte do capital disponível, elevando os juros futuros e encarecendo o crédito para consumidores e empresas. O especialista aponta que, para evitar uma crise mais profunda, será necessária uma política fiscal mais restritiva em 2027, caso o cenário econômico continue deteriorando.

Por fim, o mercado de trabalho e o Produto Interno Bruto (PIB) ainda apresentam sinais de aquecimento, mas especialistas alertam para os riscos de uma desaceleração mais acentuada, que poderia agravar a capacidade de pagamento das famílias. A expectativa é de que as consequências do aumento da inadimplência ainda estejam por completo, com sinais de que o impacto se intensificará nos próximos trimestres, especialmente se a economia continuar a desacelerar.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade