O Brasil registrou melhorias em 71% dos indicadores atualizados na edição de 2026 do Observatório Brasileiro das Desigualdades, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) em parceria com o Ministério das Mulheres. Contudo, o levantamento aponta que, ao mesmo tempo, a concentração de renda no país aumentou, e disparidades relacionadas a gênero, raça, moradia e território permanecem ou se agravaram ao longo do período analisado.
O relatório, na sua quarta edição, avalia uma variedade de indicadores que abrangem áreas como trabalho, renda, segurança alimentar, educação, saúde, meio ambiente, acesso a serviços básicos, desigualdades urbanas, segurança pública e representação institucional. É importante destacar que os dados utilizados não têm necessariamente o mesmo período de referência, uma vez que a atualização depende da periodicidade das pesquisas e registros disponíveis. Assim, os números de 2026 representam diferentes anos, conforme a fonte de cada indicador.
Entre os avanços destacados, está a melhora no mercado de trabalho. Em 2025, a taxa de desocupação caiu para 5,6%, o que representa uma redução significativa em relação aos anos anteriores. Além disso, o rendimento médio real de todas as fontes de renda atingiu R$ 3.376, um crescimento de 5,3% em relação ao ano anterior. Essa melhora se refletiu também na diminuição da parcela da população com renda domiciliar per capita de até um quarto e até meio salário mínimo, que passaram de 8,2% e 25,4%, respectivamente, em 2024, para 7,9% e 24,7%, em 2025. Apesar dessa redução, as regiões Norte e Nordeste continuam concentrando as maiores proporções de populações nessas faixas de renda.
Contudo, o crescimento da renda não foi uniforme entre os diferentes grupos populacionais. O rendimento médio dos homens aumentou 5,8% em 2025, enquanto o das mulheres cresceu 4,8%, fazendo com que a razão entre os rendimentos médios de ambos caísse de 73% para 72,2%. No recorte racial, a disparidade também permanece evidente: o rendimento médio de mulheres negras foi de R$ 2.184, enquanto o de homens não negros atingiu R$ 5.172. A proporção entre esses rendimentos caiu de 43,5% em 2024 para 42% em 2025, indicando uma persistente desigualdade racial no mercado de trabalho.
Apesar dos avanços em emprego e renda, o relatório aponta que a diferença entre os estratos mais ricos e os mais pobres aumentou. Em 2024, o rendimento médio do 1% mais rico era 30,2 vezes superior ao dos 50% mais pobres, enquanto em 2025 essa proporção subiu para 31,5 vezes, um aumento de 1,3 ponto percentual. Além disso, a carga tributária sobre as faixas de renda mais elevadas permanece regressiva, com a efetiva incidência do Imposto de Renda sendo proporcionalmente menor para contribuintes de maior renda, devido à composição dos rendimentos, incluindo lucros, dividendos e outras fontes de capital. Recentemente, houve mudanças na legislação tributária, como a ampliação da faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais e a maior tributação sobre rendimentos anuais superiores a R$ 600 mil, medidas que podem contribuir para uma maior progressividade do sistema tributário.
No âmbito social, o relatório registra uma redução na taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais, que passou de 5,3% em 2024 para 4,9% em 2025. Essa diminuição ocorreu em praticamente todas as regiões, com exceção do Centro-Oeste, onde o indicador permaneceu estável. No entanto, persistem diferenças regionais e raciais expressivas: o analfabetismo atingiu 10,6% no Nordeste, enquanto no Sul e Sudeste ficou em torno de 2,4% e 2,3%, respectivamente. Entre a população negra, a taxa foi de 6,5%, mais que o dobro dos 2,8% entre pessoas não negras.
Na área de segurança alimentar, houve redução na proporção de pessoas em situação de insegurança moderada ou grave, além de melhorias nos indicadores de desnutrição infantil e entre idosos. Ainda assim, diferenças entre grupos raciais e de gênero permanecem evidentes. Os dados indicam que, em 2025, 56% da população brasileira se declarou negra, enquanto negros e negras representavam 70% da população prisional, revelando uma desigualdade racial profunda e uma participação desproporcional no sistema penal.
Regionalmente, Norte e Nordeste continuam concentrando os maiores índices de pobreza, insegurança alimentar, analfabetismo, mortalidade infantil, gravidez na adolescência e acesso limitado a creches, enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam melhores indicadores de renda, educação e condições de vida. Algumas métricas, como escolarização no ensino fundamental, taxa de feminicídio, acesso à internet e a progressividade tributária, permaneceram praticamente inalteradas em relação aos anos anteriores.
No contexto urbano, o levantamento aponta aumento do peso excessivo dos custos de moradia, evidenciado pelo crescimento do número de pessoas vivendo em áreas de risco geológico, que atingiu cerca de 4,7 milhões de indivíduos em 2026, um aumento de 7% em relação ao ano anterior. O número de áreas classificadas como de risco também cresceu. No campo ambiental, houve redução nas emissões de gases de efeito estufa e no desmatamento, embora o estudo destaque o contraste entre essa melhora e o aumento da população exposta a riscos geológicos.
De modo geral, o balanço do Observatório demonstra que, apesar de avanços em indicadores relacionados ao emprego, renda, educação, saúde, segurança pública e meio ambiente, as disparidades de renda e as desigualdades estruturais por raça, gênero, moradia e território permanecem, com alguns aspectos se agravando ao longo do período avaliado.