Nos primeiros três meses do ano, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou um crescimento de 1,4%, impulsionado principalmente pelo setor agropecuário. Apesar desse resultado positivo, economistas preveem que a economia do país deverá perder força nos trimestres seguintes.
Especialistas entrevistados pelo Metrópoles acreditam que o desempenho do PIB no primeiro trimestre reforça a ideia de uma economia resiliente, mas operando em um ritmo mais contido. Há um consenso de que a manutenção das taxas de juros em níveis elevados pode restringir o crescimento econômico nos próximos períodos.
Juliana Trece, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) e coordenadora do Monitor do PIB, alerta que o “crescimento excepcional” do PIB observado agora não se repetirá no futuro. Ela prevê uma desaceleração nos trimestres vindouros, com o FGV Ibre mantendo uma projeção de alta de 1,9% para o PIB em 2023.
Trece enfatiza que, ao longo do ano, os dados do PIB provavelmente apresentarão resultados bem mais modestos comparados ao crescimento significativo acima de 1%. Ela observa que os efeitos da taxa de juros se tornarão mais evidentes nessa desaceleração.
Ela explica que o crescimento acentuado se deve ao excelente desempenho da agropecuária, especialmente impulsionado pela colheita de soja nos primeiros meses do ano. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmou que o setor agro foi crucial para o crescimento do PIB, com um aumento de 12,2% na economia do país.
A economista observa que o Brasil está atravessando um ciclo de aperto monetário, com a taxa Selic atualmente em 14,75% ao ano, conforme definido pelo Banco Central. “Esse nível elevado de juros tem um impacto que leva tempo para refletir na economia. Agora, estamos começando a sentir as consequências do que foi decidido no final do ano passado”, comenta ela.
Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio, aponta que “a Selic não impediu o crescimento da atividade, mas limitou a expansão do crédito e investimentos mais robustos, o que restringe o potencial de um crescimento mais sustentável”.
Apesar de prever uma desaceleração do PIB nos próximos meses, Trece não antecipa um cenário de retração ou recessão econômica. Ela acredita que pode haver uma queda em algum momento, mas nada que acenda um alerta para uma recessão iminente.
Por outro lado, Cristina Helena Pinto de Mello, professora de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é mais otimista em relação ao crescimento econômico, embora também espere um desempenho inferior nos últimos trimestres do ano. “O resultado do PIB foi notável, pois mesmo diante de uma política monetária restritiva e uma taxa de juros elevada, observamos um bom desempenho nos serviços complexos e na agricultura”, ressalta.
Ela acrescenta: “É possível que mantenhamos um ritmo de crescimento até o final do ano, alcançando entre 2,5% a 3%. Contudo, também é provável que vejamos um desempenho um pouco mais fraco no segundo semestre”.
Mello acredita que a necessidade de um ajuste fiscal — visando o cumprimento das metas estabelecidas no novo arcabouço fiscal — e a incerteza do mercado internacional, especialmente com as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, podem limitar uma possível expansão da economia brasileira. “É necessário um acompanhamento cuidadoso, pois não podemos extrapolar o passado para prever o futuro devido a essas mudanças. O ajuste fiscal pode moderar o ritmo de crescimento do PIB”, defende a professora.
Enrico Gazola, economista formado pelo Insper e co-fundador da Nero Consultoria, adverte que o crescimento observado no primeiro trimestre “não deve ser interpretado como uma aceleração sustentável”. Ele acredita que os próximos meses “devolverão parte desse impulso”.
“O dado é positivo, mas pontual. O Brasil continua a crescer abaixo de seu potencial a longo prazo, devido à baixa produtividade, insegurança jurídica e um Estado oneroso que entrega pouco”, analisa Gazola. “Sem reformas estruturais que desbloqueiem o investimento privado e melhorem a eficiência do gasto público, permaneceremos em um crescimento limitado – mesmo que, no momento, estejamos vendo um movimento ascendente.”
Volnei Eyng, CEO da gestora Multiplike, ressalta que “o ritmo de crescimento ainda depende de clareza sobre os próximos passos da política monetária”, que é gerenciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.