Enquanto o público aguardava ansiosamente pela estreia de “Frankenstein”, a nova adaptação de Guillermo del Toro da obra clássica de Mary Shelley, um dos aspectos que mais intrigou a todos foi a representação da Criatura, interpretada por Jacob Elordi. Em uma entrevista exclusiva ao Splash, o renomado maquiador e designer de efeitos especiais Mike Hill, que cuidou da caracterização, explicou que o foco nunca foi criar um monstro, mas sim um ser com uma alma gentil, cuja aparência remete a uma “estátua danificada e remendada”.
“É incrível ouvir sobre a expectativa em torno do filme, mas ao mesmo tempo é bastante intimidante, pois carrego uma grande responsabilidade”, revelou Hill. “Nosso objetivo foi criar uma criatura que se encaixasse na nossa narrativa e na visão de Guillermo, e eu me orgulho muito do que conseguimos. Não estávamos apenas fazendo um monstro, mas dando vida a um personagem. Essa entidade ainda era humana; ela era vista como um monstro apenas por causa da nossa percepção.”
A filosofia que guiou o design da Criatura foi amplamente influenciada pela visão singular do diretor. Hill observou que Del Toro comunica suas ideias de uma forma bastante peculiar. “Ele geralmente expressa o que não quer. É interessante, não sei se ele percebe, mas frequentemente me diz ‘não quero isso e não quero aquilo’, e a partir disso consigo formar uma ideia do que ele possivelmente deseja”, compartilhou o maquiador.
O conceito fundamental era a beleza encontrada na imperfeição. “Eu sabia que Guillermo desejaria algo esteticamente atraente, algo como uma estátua quebrada que foi restaurada. Mesmo danificada, a estátua mantém sua beleza, e embora tenha rachaduras, sua essência permanece intacta.”
A principal inspiração de Hill para a Criatura veio do contexto histórico. “Queria que ele parecesse pertencer àquela época, e as formas de seu rosto não eram acidentais. Se você o visse em uma cama de hospital, perceberia que alguém o fez. Queria que ele contasse uma história. Essas características não faziam sentido, o que deixa claro que um homem o criou, e não a natureza.”
Para garantir que o público se conectasse com a personagem, o design foi focado nos olhos de Jacob Elordi. “Cada detalhe, cada linha, tinha que direcionar o olhar para os olhos do Jacob. É para lá que a atenção deve ir.”
A escolha do ator foi um trunfo para a criação da personagem. “Ele possui uma estrutura facial marcante. É um homem forte e atraente. Isso facilitou muito a aplicação da maquiagem, pois não precisei criar um queixo falso, ele já tinha um”, brincou Hill.
O maquiador aproveitou a estrutura óssea do ator, acrescentando maçãs do rosto salientes, uma testa e sobrancelhas mais destacadas. Um detalhe que homenageia Boris Karloff, o clássico Frankenstein, foi uma saliência no nariz. “Tive que envelhecê-lo um pouco, pois ele tinha apenas 26 anos quando começamos a filmar, e achei que a criatura deveria parecer um pouco mais velha.”
No entanto, o processo era monumental. O tempo padrão para a maquiagem da cabeça e das mãos era de quatro horas e meia. Para as cenas que exigiam a cobertura do corpo todo, esse tempo chegava a impressionantes dez horas. “Nossos horários de trabalho começavam à meia-noite. Dormíamos por volta das 19h, acordávamos à meia-noite e começávamos a aplicar a maquiagem no Jacob até a manhã, e então trabalhávamos o dia todo antes de remover tudo. Era realmente cansativo”, contou.
Para manter-se motivado, Hill adotou um mantra: “Se você não estivesse fazendo a maquiagem desse monstro, estaria morrendo de inveja. E em segundo lugar: se você ouvisse alguém reclamando de estar cansado, você diria ‘quem se importa? Você está trabalhando no monstro do Frankenstein’. Então, eu precisava me lembrar disso todos os dias.”
Hill também foi responsável por outros efeitos notáveis no filme, incluindo a maquiagem prostética que transformou Mia Goth em Claire Frankenstein, a mãe de Victor. “Tentei incorporar a sobrancelha de Oscar Isaac e um tipo de nariz parecido com o dele, para que ela tivesse um ar semelhante a ele”, revelou, ressaltando a inteligência narrativa de Del Toro. “É por isso que, quando Victor cresce, ele se sente atraído por Elizabeth, pois vê sua mãe nela.”
Refletindo sobre a história do filme, Hill percebe uma mensagem profunda sobre responsabilidade e amadurecimento. “Assim como qualquer criança, ao atingir a idade adulta, você se dá conta e diz: ‘Não, não, não, isso nunca foi minha culpa. Eu era um bebê. Era uma criança. Você fez isso comigo? E agora você se afastou de mim. Não vou aceitar isso’. Acho que essa é a essência da moral da história: o perdão.”
Quando questionado se, como todo artista, gostaria de modificar algo em sua criação, Mike Hill foi reflexivo: “Sim. Creio que todos os artistas olham para suas obras e pensam ‘eu faria diferente na próxima vez’. Mas sinto que fizemos a criatura em um tempo recorde. Foi como a experiência de Victor: esta foi a minha primeira tentativa. E eu não tive tempo. E Victor também não.”
A paixão de Hill por monstros começou na infância. “Comecei a esculpir monstros de argila quando tinha cerca de quatro anos. Havia um rio perto de casa, e eu pegava a argila para fazer o Monstro do Frankenstein, Boris Karloff e King Kong.” Sem uma indústria cinematográfica em sua cidade natal, ele começou vendendo suas esculturas, até que uma série de eventos o levou a Los Angeles e, eventualmente, a uma colaboração frutífera com Guillermo del Toro, que inclui “A Forma da Água” e “O Beco do Pesadelo”.
“Frankenstein”, com Oscar Isaac, Jacob Elordi e Mia Goth, já está disponível na Netflix.