No ano de 1928, o padre Theophilus Riesinger, um exorcista alemão de vasta experiência, deparou-se com um de seus casos mais complexos: a alegada possessão demoníaca de Emma Schmidt, uma mulher de 46 anos oriunda do interior do Iowa, nos Estados Unidos. Este exorcismo, que se prolongou por quatro meses e foi marcado por fenômenos sobrenaturais como levitação, vozes demoníacas e contorções corporais extremas, se tornou um dos episódios mais bem documentados da história e inspirou o filme “O Ritual”, que estreia hoje nos cinemas.
Qual é a verdadeira história? Emma Schmidt, nascida em 1882 e também conhecida pelo nome de Anna Ecklund, começou a manifestar comportamentos inquietantes aos 14 anos. Ela relatava ouvir vozes que a incitavam à violência e à blasfêmia, apresentava aversão a objetos sagrados e chegou a tentar estrangular um padre durante uma confissão. Apesar de exames médicos que confirmaram sua sanidade mental e física, a Igreja começou a considerar a possibilidade de uma possessão demoníaca, uma teoria que ganhou força ao se descobrir que sua tia, acusada de bruxaria, supostamente a havia amaldiçoado com ervas envenenadas.
O exorcismo definitivo ocorreu em 1928 no Convento de Earling, Iowa, onde Emma foi amarrada a uma cama de ferro enquanto freiras auxiliavam no ritual. De acordo com o livro “Begone Satan!” (1935), que narra o caso, durante as três etapas do exorcismo, que totalizaram 23 dias, ocorreram fenômenos impressionantes: seu corpo teria se levantado e grudado na parede, ela teria vomitado substâncias consideradas “não humanas” e emitido sons que lembravam animais.
O padre Riesinger identificou quatro entidades demoníacas presentes: Belzebu, Judas Iscariotes, sua tia Mina (a “bruxa”) e seu falecido pai, que, segundo relatos, confessou tê-la amaldiçoado após ser rejeitado sexualmente. Apesar do que parecia ser um desfecho positivo para o exorcismo, que foi encerrado em 23 de dezembro de 1928, o caso permanece envolto em mistério. A Igreja Católica nunca se pronunciou oficialmente sobre o ocorrido, e especialistas contemporâneos sugerem que Emma poderia ter padecido de esquizofrenia, epilepsia ou transtorno dissociativo.
Curiosamente, muitos aspectos da história de Emma Schmidt aparecem na famosa obra “O Exorcista”, de William Peter Blatty, que inspirou o filme homônimo. Embora o autor tenha se baseado principalmente no caso de Roland Doe, ocorrido em 1949, as semelhanças são notáveis. David Midell, diretor de “O Ritual”, acredita que Blatty certamente se debruçou sobre o caso de Schmidt durante sua pesquisa criativa. Entre as semelhanças estão a relação entre um padre experiente e um noviço, os sintomas físicos extremos e detalhes como a rejeição sexual por uma figura paterna.
Mais de noventa anos depois, a história de Emma Schmidt continua a intrigar e a perturbar, marcando um ponto crucial na narrativa dos exorcismos documentados e levantando questões duradouras sobre a intersecção entre fé, medicina e o sobrenatural.