Wes Anderson é um cineasta que, apesar de repetir fórmulas, sempre as apresenta de maneira tão cativante que se torna impossível ignorar suas novas obras. Quando mencionamos a repetição, referimo-nos a mais uma narrativa que surge de uma ideia singular, repleta de personagens carismáticos e excêntricos, que protagonizam uma alegoria que, embora leve, aborda questões humanas e contemporâneas.
Além disso, seu estilo visual é inconfundível, marcado por uma direção meticulosamente planejada, com movimentos de câmera bem definidos, atuações igualmente precisas e uma direção de arte, paleta de cores e figurinos que são verdadeiros espetáculos.
Por isso, “O Esquema Fenício” é mais um filme característico de Wes, mas com uma nova abordagem. Todos os elementos que definem suas obras estão presentes, mas, diferentemente de produções mais complexas como “Asteroid City”, este novo longa flui com leveza.
Benicio del Toro brilha como protagonista ao lado da jovem Mia Threapleton, que demonstra um impressionante talento, não apenas contracenando com del Toro, mas também com grandes nomes como Tom Hanks, Bryan Cranston, Michael Cera, Riz Ahmed, Jeffrey Wright, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Charlotte Gainsbourg, Willem Dafoe e Bill Murray.
O roteiro, coescrito com seu colaborador de longa data, Roman Coppola, narra a saga de Zsa-zsa Korda, um magnata europeu extremamente rico. Constantemente ameaçado de morte e sobrevivente de diversos atentados e acidentes aéreos, Zsa-zsa teme que seu mais recente projeto seja interrompido em caso de sua morte. Para garantir a continuidade da “Infraestrutura fenícia terrestre e marítima de Korda”, ele decide deixar sua fortuna para sua única filha, a jovem freira Liesl (Mia Threapleton).
Embora Zsa-zsa tenha nove filhos, é Liesl a única em quem ele confia não apenas a herança, mas também o apoio necessário para persuadir seus parceiros comerciais a seguirem adiante no projeto, mesmo que isso signifique diminuir seus lucros. Ele enfrenta um obstáculo quando o governo dos Estados Unidos, representado pelo metódico Mr. Excaliber (Rupert Friend), tenta sabotar o projeto ao aumentar o custo dos materiais essenciais.
Acompanhado por Liesl e pelo professor de biologia e tutor das crianças, Bjorn (Michael Cera), Zsa-zsa se vê obrigado a negociar com empresários, empreiteiros e até criminosos, tentando proteger seus planos.
O que à primeira vista parece uma comédia leve e divertida pode ser interpretado como uma crítica à ganância, ao abuso de poder e ao papel que os magnatas desempenham em relação ao poder público. A semelhança com um cenário onde empresários se tornam presidentes e políticos se autodenominam “gestores” pode não ser mera coincidência.
Wes, que é casado com a filha de um importante empresário libanês, aborda com humor questões relevantes para refletir sobre o mundo atual. Em um segundo plano, a narrativa também explora a relação entre pai e filha, uma vez que Liesl, órfã de mãe desde cedo, não teve convivência com o pai e suspeita de que ele tenha causado a morte da mãe.
Outras figuras engraçadas e tramas secundárias, como somente Wes sabe fazer, surgem ao longo da jornada da dupla. No entanto, é com Zsa-zsa, interpretado por del Toro, e Liesl, vivida por Mia, que nos envolvemos o suficiente para refletir sobre a essência dos negócios e das relações humanas.
Assim, Wes mais uma vez traz seu estilo característico, divertindo, provocando e encantando com sua assinatura inconfundível. “O Esquema Fenício” é despretensioso e, por isso, uma delícia, destacando-se como uma das melhores obras de Wes nos últimos anos.