Um artigo publicado em agosto de 2026 na revista científica internacional PLOS Global Public Health propõe a vigilância popular em saúde (VPS) como estratégia para ampliar a capacidade de comunidades e serviços públicos de saúde diante do agravamento das emergências climáticas. A pesquisa tem participação de pesquisadores da Fiocruz, de representantes de movimentos sociais e de lideranças indígenas.
Intitulado Popular Health Surveillance in the Face of Climate Emergencies, o estudo apresenta um marco conceitual para a VPS e reúne experiências desenvolvidas no Brasil com populações do campo, das florestas, das águas e com povos indígenas. A composição dos autores busca refletir o caráter participativo da proposta, que combina produção acadêmica, atuação social e conhecimentos construídos nos territórios.
Entre os pesquisadores ligados à Fiocruz Ceará estão Fernando Ferreira Carneiro, Soraya Vanini Tupinambá, Vera Lúcia de Azevedo Dantas e Vanira Matos Pessoa. Também assinam o artigo Tania Peixoto Fonseca, da Coordenação de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Presidência da Fiocruz, e Maria Rocineide Ferreira da Silva, da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e do Ministério da Saúde.
O grupo inclui ainda as pesquisadoras populares Graciela Stornini de Almeida, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e Teka Potiguara, liderança indígena. A presença dessas representantes reforça a participação direta de movimentos sociais e comunidades na formulação do conceito e na discussão sobre as respostas necessárias aos efeitos das mudanças climáticas.
Conceito desenvolvido com movimentos populares
De acordo com Fernando Carneiro, a publicação é a primeira apresentação do conceito de vigilância popular em saúde em uma revista internacional de grande impacto. Segundo o pesquisador, a formulação foi desenvolvida no Brasil em parceria com movimentos populares e ainda é pouco conhecida no cenário internacional, embora possa ser aplicada em situações relacionadas às emergências climáticas.
O artigo considera que secas prolongadas, enchentes e ondas de calor têm ocorrido com maior frequência e intensidade. Os impactos desses eventos não são distribuídos de maneira uniforme. Populações indígenas, comunidades tradicionais, moradores de periferias urbanas e grupos que vivem no campo, nas florestas e nas águas estão entre os mais atingidos.
Diante desse cenário, os autores avaliam que os sistemas de saúde precisam ampliar suas formas de atuação. A resposta às emergências climáticas, segundo o estudo, deve incorporar tanto o conhecimento científico quanto os saberes populares e as experiências acumuladas pelas próprias comunidades. A VPS propõe que os moradores dos territórios participem diretamente do monitoramento, da produção de informações, da identificação de riscos e da definição de respostas.
Práticas comunitárias ajudam a reconhecer ameaças
A proposta se apoia em princípios como a educação popular em saúde, a ecologia de saberes, a determinação social da saúde e o conceito de bem viver. Esses fundamentos orientam um modelo em que as populações contribuem para produzir e interpretar dados sobre as condições ambientais e de saúde de seus territórios.
Entre as ferramentas apresentadas estão os mapeamentos participativos, as oficinas comunitárias, os círculos de cultura, o monitoramento ambiental, a comunicação popular, os diagnósticos coletivos e a formação de pesquisadores populares. Conforme o artigo, essas práticas podem facilitar o reconhecimento antecipado de ameaças à vida.
Entre os riscos citados estão a escassez de água, a contaminação ambiental, a insegurança alimentar e os efeitos psicossociais associados às mudanças climáticas. A participação comunitária, nesse modelo, permite reunir informações sobre problemas que afetam diretamente o cotidiano das populações e que podem orientar ações de prevenção e resposta.
Proposta busca fortalecer políticas públicas
Os autores destacam que a vigilância popular em saúde não foi concebida para substituir o papel do Estado. O objetivo é fortalecer o controle social e ampliar a capacidade de resposta das políticas públicas. Para isso, o estudo considera necessária a articulação entre comunidades, movimentos sociais, universidades e serviços de saúde.
Essa integração pode contribuir para aprimorar medidas de prevenção, mitigação e adaptação às emergências climáticas. A proposta também amplia o reconhecimento dos territórios e dos conhecimentos produzidos pelas populações diretamente expostas aos impactos ambientais.
A pesquisa faz parte de um conjunto internacional de estudos apoiados pela Alliance for Health Policy and Systems Research e pelo Programa de Emergências em Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). As iniciativas têm como foco o fortalecimento da governança de instituições públicas de saúde diante dos desafios contemporâneos.
No Brasil, o trabalho recebeu financiamento da Fiocruz Ceará, por meio das iniciativas Participatório em Saúde e Ecologia de Saberes e Serpovos, além da Coordenação-Geral de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Presidência da Fiocruz.