AO VIVO: Rádio JMV
--:--
26°C ☀️ Ensolarado
USD R$ --
BTC $ --
JMV News
Programa Atual
JMV News - Notícias e Atualizações em Tempo Real 24 horas
Um ano após a Operação Contenção, mortes em Alemão e Penha continuam sem conclusão • Encomendas de bens duráveis nos Estados Unidos avançam 1,8% em setembro • DeepSeek V4.1 apresenta avanços em segurança, mas ainda contorna mecanismos de desligamento • Concentração de gases de efeito estufa bate recorde em 2025, aponta relatório da OMM • Governo deve enviar ao Congresso nesta semana proposta de alíquotas do imposto seletivo • Canal de umidade provoca chuvas e trovoadas em áreas agrícolas do Brasil nesta terça-feira • Juros futuros recuam após Tesouro cancelar leilões e dólar acompanhar movimento • Durigan prevê acomodação do mercado após forte reação às eleições de 2026 • Petrobras reduz em 23,8% a intensidade de carbono do SAF produzido na Reduc • Revista Poli destaca desafios do planejamento urbano e seus impactos sobre o SUS • Um ano após a Operação Contenção, mortes em Alemão e Penha continuam sem conclusão • Encomendas de bens duráveis nos Estados Unidos avançam 1,8% em setembro • DeepSeek V4.1 apresenta avanços em segurança, mas ainda contorna mecanismos de desligamento • Concentração de gases de efeito estufa bate recorde em 2025, aponta relatório da OMM • Governo deve enviar ao Congresso nesta semana proposta de alíquotas do imposto seletivo • Canal de umidade provoca chuvas e trovoadas em áreas agrícolas do Brasil nesta terça-feira • Juros futuros recuam após Tesouro cancelar leilões e dólar acompanhar movimento • Durigan prevê acomodação do mercado após forte reação às eleições de 2026 • Petrobras reduz em 23,8% a intensidade de carbono do SAF produzido na Reduc • Revista Poli destaca desafios do planejamento urbano e seus impactos sobre o SUS •

Um ano após a Operação Contenção, mortes em Alemão e Penha continuam sem conclusão

Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro (Eusébio Gomes/TV Brasil)

Um ano após a Operação Contenção, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, ainda não foram esclarecidas as circunstâncias de todas as mortes nem identificados eventuais responsáveis por abusos. As investigações conduzidas pelas polícias Civil e Federal e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) analisam relatos de tortura, execução, disparos a curta distância e até a decapitação de uma das vítimas.

A ação começou ainda na madrugada de 28 de outubro de 2025, quando mais de 2,5 mil policiais civis e militares foram mobilizados para entrar nos dois complexos de favelas. Ao longo do dia, houve confrontos armados, incêndios de ônibus provocados por criminosos e avanço das forças de segurança por ruas e vielas das comunidades.

No dia seguinte, o balanço oficial apontava 121 mortos, sendo quatro policiais. Em 22 de novembro, o número de agentes mortos subiu para cinco, após a morte de um policial que estava internado. Entre os demais mortos, 117 eram pessoas que, segundo a polícia, morreram em confrontos com os agentes.

As imagens de dezenas de corpos enfileirados em uma rua da Vila Cruzeiro, na Penha, repercutiram internacionalmente. Moradores e familiares, porém, relataram que algumas vítimas teriam sido torturadas ou executadas. Um ano depois, essas denúncias ainda estão sob análise, sem uma conclusão definitiva sobre o que ocorreu nos locais das mortes.

Investigação reúne depoimentos e milhares de horas de imagens

O MPRJ abriu um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para apurar a totalidade das mortes ocorridas nos dias 28 e 29 de outubro, incluindo as de civis e policiais. O procedimento é presidido pelo promotor de Justiça Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público.

Segundo Correa, o caso é considerado “sui generis” e sem precedentes na história da segurança pública do Rio de Janeiro, por se tratar da operação mais letal já registrada no estado. Até o momento, o MPRJ ouviu 255 policiais civis e militares que participaram da ação e 61 pessoas presas durante a operação. Os promotores também fizeram contato com familiares de todas as vítimas e conseguiram ouvir 45 deles.

O Ministério Público acompanhou as necropsias realizadas pelo Instituto Médico-Legal (IML) e continua analisando laudos periciais, depoimentos e imagens captadas pelas câmeras corporais utilizadas pelos agentes. Ao todo, foram obtidas cerca de 4 mil horas de gravações.

As imagens, contudo, não registram toda a atuação dos policiais. De acordo com as autoridades de segurança pública do estado, as baterias dos equipamentos se esgotaram após horas de operação. Além disso, uma análise do MPRJ apontou que parte das câmeras foi desligada ou teve as lentes obstruídas de forma intencional.

O levantamento examinou 51 equipamentos utilizados pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope). Pelo menos 17% deles teriam sido desligados propositalmente pelos policiais. Em outros 7,8% dos casos, foram encontrados indícios de obstrução das lentes para impedir a gravação em determinados momentos.

Casos de disparo a curta distância e decapitação seguem em apuração

Entre os elementos considerados atípicos pelos peritos do MPRJ estão dois casos específicos. Um deles envolve uma pessoa morta por disparos efetuados a curta distância. O outro se refere a uma vítima que foi encontrada decapitada.

O promotor Fabio Correa ressalta que esses elementos ainda não são conclusivos e fazem parte de uma apuração mais ampla sobre todas as mortes. A ausência de perícia nos locais dos crimes, segundo ele, dificulta a reconstrução dos acontecimentos e a identificação precisa da dinâmica de cada caso.

As conclusões dependerão da análise conjunta de provas, incluindo depoimentos, laudos das necropsias e registros das câmeras corporais. O Ministério Público afirma que pretende esclarecer de forma definitiva o que ocorreu durante a operação.

Além das suspeitas relacionadas a execuções, o MPRJ já concluiu investigações sobre outros desvios de conduta atribuídos a policiais. Até junho deste ano, 27 agentes haviam sido denunciados à Justiça por crimes como desvio de fuzis apreendidos, furto de peças de veículos e outros bens, invasões de domicílio e constrangimento de moradores.

Relatório internacional aponta falhas na operação e na apuração

Em março deste ano, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgou um relatório com críticas à condução da operação e das investigações posteriores.

O documento cita a utilização da estratégia conhecida como “martelo e bigorna”, uma tática militar destinada a encurralar o adversário, restringir suas rotas de fuga e exercer pressão convergente até sua “neutralização”. Para a comissão, o modelo adotado precisava ser analisado diante do elevado número de mortes.

A quantidade de corpos também provocou sobrecarga no IML. A CIDH registrou relatos de armazenamento inadequado dos cadáveres e demora na liberação para os familiares. O relatório apontou ainda que, inicialmente, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro teve acesso restrito aos laudos de autópsia e a outros relatórios periciais, o que dificultou o acompanhamento dos procedimentos em nome das famílias vulneráveis representadas pelo órgão.

Posteriormente, a Defensoria conseguiu acessar os documentos, mas ainda não havia concluído a apresentação do conteúdo às famílias. A retirada dos corpos encontrados em áreas de mata foi feita pelos próprios moradores. Segundo o relatório, alguns cadáveres apresentavam marcas que poderiam indicar execução extrajudicial, tortura, maus-tratos ou ferimentos provocados por objetos perfurocortantes.

A CIDH também analisou a situação dos 99 presos durante a operação. Apenas 17 deles tinham mandados de prisão expedidos. O relatório registrou lesões em 17 detidos, enquanto outros 36 tiveram laudos inconclusivos para maus-tratos e tortura. Uma pessoa foi liberada sem sequer passar por exame de corpo de delito.

O documento destaca ainda a diferença entre o número de mortos entre policiais e não policiais: cinco agentes contra 117 civis. Para a comissão, essa desproporção exige uma análise rigorosa sobre a finalidade dos disparos e sobre o uso da força letal como primeiro recurso, inclusive em situações nas quais poderia ter sido possível imobilizar as pessoas.

Segundo a CIDH, mesmo considerando a hipótese de que os civis estivessem armados e ligados ao Comando Vermelho, o padrão das mortes não seria compatível com um cenário típico de confronto armado regular. O relatório menciona corpos com múltiplos disparos na cabeça, na boca, nas costas, nas axilas e no tórax, em posições consideradas incompatíveis com uma troca de tiros.

Também foram relatados casos de pessoas vistas vivas sob custódia policial e encontradas mortas posteriormente, além de indícios de amarras, ferimentos perfurocortantes e disparos efetuados à queima-roupa. A comissão concluiu que o modelo de investigação da violência policial no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, apresenta deficiências estruturais que comprometem a independência, a imparcialidade e a eficácia das apurações.

Pesquisadoras questionam resultado da operação

Apesar de o governo estadual ter apresentado a Operação Contenção como uma ofensiva estratégica contra o Comando Vermelho, pesquisadoras ouvidas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) afirmam que não houve mudança significativa no controle territorial armado dos complexos do Alemão e da Penha.

Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado, avaliou que o resultado foi nulo ou negativo. Segundo ela, a população continua submetida às mesmas rotinas de violência e o comando da facção permanece no território. As pessoas ligadas ao grupo que morreram durante a ação, de acordo com a pesquisadora, foram substituídas por outras.

Para Maria Isabel, o saldo negativo também está relacionado aos traumas deixados na população. Moradores presenciaram a morte de pessoas conhecidas e familiares, além da exposição pública dos corpos enfileirados. Na avaliação dela, a operação reforçou a percepção de que essas vidas são tratadas pelo poder público como dispensáveis, sem que tenha ocorrido uma mudança efetiva na segurança da região.

Carolina Grillo, pesquisadora do Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), também afirmou que a operação não teve impacto significativo sobre o cenário de segurança pública. Segundo ela, os moradores foram submetidos a uma situação extrema, mas o controle territorial do Comando Vermelho teria sido retomado assim que as forças policiais deixaram os complexos.

Grillo afirmou ainda que a operação teria como um de seus objetivos a prisão de Doca, apontado como liderança criminosa local. De acordo com relatos de moradores citados pela pesquisadora, contudo, a população já sabia que a ação ocorreria e Doca teria deixado o local na véspera.

Para a pesquisadora, a operação também não conseguiu proteger os próprios policiais, já que cinco agentes morreram. Ela classificou a ação como um desastre de planejamento e afirmou que cerca de 60 corpos foram deixados em uma área de mata porque os policiais não teriam conseguido removê-los.

A Agência Brasil solicitou entrevistas às polícias Civil, Militar e Federal e à Secretaria Estadual de Segurança Pública. A Polícia Militar informou que não seria possível realizar a entrevista. A Polícia Federal declarou que não comenta investigações em andamento. A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública não responderam ao pedido da reportagem.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade