A Caramuru Alimentos, empresa tradicional do setor de agronegócio e biocombustíveis, mantém perspectivas positivas para os próximos anos, apesar das dificuldades enfrentadas em 2026, marcadas por instabilidades globais e desafios regulatórios. Em entrevista ao programa “É Negócio”, da CNN Brasil, o CEO Marcus Thieme analisou o desempenho da companhia e as estratégias para o futuro, destacando a evolução do segmento de biocombustíveis e a ampliação de sua capacidade de produção.
O início do ano foi marcado por um cenário atípico, influenciado por conflitos geopolíticos, como a guerra no Oriente Médio, que afetaram diretamente o mercado de combustíveis renováveis e o agronegócio brasileiro. Segundo Thieme, esses acontecimentos atrasaram a implementação do B16, uma mistura de biodiesel prevista para entrar em vigor em abril de 2026, mas que não foi adotada devido à necessidade de concluir testes técnicos essenciais. A legislação que regula o setor, conhecida como a lei do combustível do futuro, estabelece um aumento progressivo na mistura de biodiesel, inicialmente de 1% ao ano, com previsão de avançar para o B17 em 2026, e estudos em andamento até para o B20, indicando uma possível elevação ainda maior na proporção de biodiesel na matriz energética.
Apesar dos obstáculos, a empresa identificou oportunidades no segmento de farelos de alto valor proteico, especialmente no mercado de exportação. Entre os produtos destacados estão o Hypro, com 48% de proteína, e o SPC (proteína concentrada de soja), com 62% de proteína. Thieme ressaltou que a demanda por esses farelos tem sido bastante positiva, especialmente na Noruega, maior produtora de salmão do mundo. O aumento do consumo de farelo vegetal na alimentação de peixes em cativeiro ocorreu devido às restrições governamentais à pesca, criando uma nova demanda de mercado que a Caramuru conseguiu atender ao agregar valor aos seus produtos, indo além do processamento básico de soja.
Para o próximo ano, a expectativa é de que a produção de biodiesel avance com maior segurança, impulsionada pelos testes em andamento. A companhia já está preparando a transição do B15 para o B17, com estudos também voltados ao B20, o que reforça a confiança na retomada do crescimento do setor. No aspecto operacional, a Caramuru ampliou sua planta em Ipameri (Goiás) em 2025, dobrando sua capacidade de processamento de aproximadamente 450 mil para cerca de 930 mil toneladas anuais. Atualmente, a empresa processa cerca de 2,4 milhões de toneladas de soja por ano e produz aproximadamente 440 mil metros cúbicos de biodiesel.
No desempenho financeiro de 2025, a Caramuru registrou uma receita líquida de R$ 8,2 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 812,5 milhões e lucro líquido de R$ 570,8 milhões. O segmento de biocombustíveis representou aproximadamente 31% de sua receita total, enquanto o restante foi gerado pelas operações de commodities, incluindo óleos de soja, girassol, canola e milho, comercializados em grandes redes de varejo, como o Carrefour. A trajetória da empresa teve início no Paraná, com processamento de milho, e se expandiu para o Centro-Oeste, onde atualmente mantém unidades em Goiás — em Itumbiara, São Simão e Ipameri — além de uma unidade em Sorriso (Mato Grosso), dedicada ao processamento de soja convencional não transgênica.
A estratégia de diversificação e ampliação de capacidade demonstra o compromisso da Caramuru com o crescimento sustentável no setor de biocombustíveis e alimentos, mesmo diante das incertezas do mercado global. As ações da companhia indicam uma postura de otimismo cauteloso, com foco na evolução regulatória e na busca por novas oportunidades de mercado.