Uma publicação de humorista foi alvo de decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última sexta-feira, 25 de setembro, após viralizar nas redes sociais uma acusação infundada envolvendo Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e uma suposta intenção de atacar a santa por parte da família do deputado Flávio Bolsonaro (PL). A postagem, que apresentava uma imagem da padroeira acompanhada da frase “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”, foi considerada pelo ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, como uma manifestação que poderia configurar ofensa e desinformação, levando à determinação de que o humorista Antonio Tabet removesse o conteúdo do X (antigo Twitter). A decisão também proíbe novas publicações com a mesma acusação, sob pena de multa de R$ 30 mil.
A ação judicial foi motivada por documentos apresentados pela campanha de Flávio Bolsonaro, que indicaram que o deputado não propôs nem apoiou qualquer projeto de lei que alterasse o status de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Apesar disso, o tema ganhou destaque na campanha presidencial e nas redes sociais, impulsionado por um projeto de lei arquivado há mais de uma década. Trata-se do PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli (PP-MT), que pretendia alterar a redação da Lei 6.802/80 para especificar que Nossa Senhora Aparecida seria “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, sob o argumento de preservar a laicidade do Estado. O projeto foi rejeitado na Comissão de Educação e Cultura e arquivado em agosto de 2008.
Na mesma semana, uma declaração de Maria Cristina Fernandes, feita na GloboNews, também gerou controvérsia. Ela afirmou que haveria uma reação da Igreja Católica contra evangélicos que estariam mobilizando o projeto de lei, o que poderia favorecer o candidatura de Lula na disputa presidencial. A fala foi tirada de contexto e passou a circular como se ela estivesse apoiando uma ação específica contra Flávio Bolsonaro, o que levou à retratação da emissora.
Dados de monitoramento indicam que o assunto alcançou alta repercussão nas redes sociais nesta sexta-feira. Segundo levantamento da Palver, a menção a Nossa Senhora Aparecida atingiu o pico de 735 menções a cada 100 mil mensagens, enquanto o próprio relatório da campanha de Flávio Bolsonaro, entregue ao TSE, contabilizou 2.086 publicações de 1.674 contas diferentes, com mais de 21 milhões de visualizações. Além disso, o Google Trends mostrou que as buscas pela santa atingiram o maior nível em três meses.
Autoridades da Igreja Católica também se manifestaram publicamente. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, por meio de suas redes sociais, que recebeu mensagens de fiéis preocupados e garantiu que as tradições religiosas serão preservadas. Na última quarta-feira, 23 de setembro, o presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler, reforçou que a Igreja não declara voto e criticou a tentativa de misturar religião e política, destacando a independência da instituição frente ao cenário eleitoral.
A controvérsia ocorre em um momento em que líderes religiosos, especialmente bispos e arcebispos católicos, vêm se posicionando publicamente em defesa da soberania nacional e dos mais pobres, alinhando-se, em alguns aspectos, ao discurso de campanha de Lula. Contudo, a Igreja reafirmou sua postura de não apoiar candidatos ou partidos políticos, buscando manter sua neutralidade nas disputas eleitorais.