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Crescem preocupações e restrições em torno dos óculos inteligentes devido a questões de privacidade

•Imagem gerada por IA

Estabelecimentos de Londres, incluindo bares, teatros e restaurantes, estão enfrentando debates e medidas restritivas relacionadas ao uso de óculos inteligentes, dispositivos capazes de capturar vídeo, fotos e áudio de forma discreta. Apesar de sua crescente popularidade, com a venda de aproximadamente 7 milhões de unidades em 2025, esses dispositivos geram preocupações sobre privacidade e consentimento, levando a ações de empresas e órgãos públicos para limitar seu uso em determinados ambientes.

Os óculos inteligentes, que contam com tecnologia de inteligência artificial, estão sendo desenvolvidos por grandes empresas do setor, como a EssilorLuxottica — parceira da Meta na fabricação desses dispositivos — e a Samsung, que, junto ao Google, prepara lançamentos para o próximo outono. A Meta, por sua vez, deve anunciar nesta semana uma nova linha de óculos sem câmeras, em resposta às críticas e ao receio de invasões de privacidade. No entanto, dispositivos como os da Meta e da Samsung possuem luzes de gravação que indicam quando estão capturando imagens ou vídeos, uma tentativa de aumentar a transparência e evitar abusos.

A reação contra os óculos inteligentes vem crescendo em várias regiões, sobretudo em Londres, Nova York e na Austrália, onde alguns estabelecimentos de hospitalidade já proibiram ou restringiram seu uso. Anúncios contra os dispositivos têm sido exibidos em estações de ônibus na capital britânica, incluindo uma sátira à campanha de Kylie Jenner para os óculos da Meta, com a mensagem: “Estamos Sempre Assistindo”. Além disso, uma proibição mais ampla está em vigor no Reino Unido desde agosto, impedindo o uso de óculos inteligentes em salas de tribunal, por preocupações com privacidade e segurança.

Alguns consumidores expressam desconforto ao perceber que sua privacidade pode estar sendo violada em ambientes onde a expectativa de privacidade é maior, como bares e restaurantes. Na rede de pubs Wetherspoons, por exemplo, a proibição de gravações com óculos inteligentes foi implementada após relatos de clientes preocupados com a possibilidade de serem filmados sem conhecimento. Um cliente, Zak, afirmou à CNN que não deseja ser filmado enquanto desfruta de uma cerveja, e criticou a dificuldade de impedir gravações ao cobrir a luz de gravação dos dispositivos, considerada uma medida pouco eficaz.

A Meta afirmou que seus óculos não gravam quando a luz de gravação é coberta e que atualizou seus dispositivos para impedir que os usuários adulterem a indicação de gravação. A empresa também destacou que tomou providências contra vídeos nas redes sociais que mostram o uso indevido dos óculos para assediar pessoas ao redor. Segundo a companhia, a luz que indica a gravação é uma medida de transparência que dispositivos como smartphones não possuem.

O Google, que tentou popularizar os óculos inteligentes com o Google Glass há mais de uma década — dispositivo que também gerou preocupações similares —, declarou que as próximas versões terão recursos de indicação de gravação e proteções contra adulterações, levando em consideração as críticas recebidas. A Samsung, que trabalha em parceria com o Google, também deve lançar óculos com luz de privacidade resistente a adulterações, embora as empresas tenham preferido não comentar detalhes específicos.

Especialistas alertam que resolver as questões de privacidade relacionadas aos óculos inteligentes não será simples. Recursos como desfocagem automática de rostos ou a necessidade de consentimento legal para uploads de vídeos são considerados difíceis de implementar e insuficientes para eliminar todos os riscos. Uma possível solução seria a ativação automática de bloqueios de gravação em áreas sensíveis, como parques infantis ou vestiários, mas essa abordagem também levantaria novas questões sobre autonomia e privacidade dos dispositivos.

No setor de entretenimento, o impacto dos óculos inteligentes é considerado negativo por profissionais de teatro e cinema, que acreditam que a possibilidade de gravações furtivas pode prejudicar a experiência ao vivo e afetar a receita de apresentações. Em locais como o Piccadilly Theatre, em Londres, os espectadores podem ser solicitados a remover os óculos e excluir qualquer filmagem capturada, caso sejam flagrados com eles. Muitos cinemas do Reino Unido também estão proibindo o uso de óculos inteligentes, preocupados com a pirataria.

Apesar das controvérsias, a tecnologia de óculos inteligentes continua a avançar, com empresas investindo em dispositivos que oferecem funcionalidades como ouvir música, fazer chamadas e auxiliar pessoas com deficiência visual a realizar tarefas cotidianas, como ler placas ou consultar menus. Segundo dados da Counterpoint Research, as remessas desses dispositivos aumentaram 212% no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, lideradas pela Meta, que domina aproximadamente 84% do mercado global.

Especialistas em direitos digitais, como Calli Shroeder, da Electronic and Privacy Information Center (EPIC), alertam que a regulamentação excessiva pode privar pessoas com necessidades especiais de uma ferramenta de acessibilidade fundamental, enquanto empresas continuam a apostar na tecnologia como a próxima grande plataforma de consumo. Assim, o desafio permanece em equilibrar inovação e proteção à privacidade em um cenário de rápida evolução tecnológica.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade