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Impactos duradouros da guerra no Irã na economia global e no mercado de petróleo

•Imagem gerada por IA

A guerra envolvendo o Irã tem provocado efeitos que vão além do aumento temporário nos preços de combustíveis, alterando de forma significativa a dinâmica do mercado energético mundial e a estrutura econômica global. Entre os principais impactos, destacam-se mudanças no controle do Estreito de Hormuz, aumento na produção de petróleo em regiões não tradicionais e alterações no comportamento do consumo na China, além de tensões na organização dos países produtores de petróleo, a OPEP.

Antes do conflito, o Estreito de Hormuz representava uma rota de navegação livre para navios de qualquer país, sendo responsável por cerca de 20% do petróleo mundial que transitava diariamente por esse corredor estratégico. No final de fevereiro, após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, Teerã declarou o controle do estreito, passando a atacar embarcações que tentavam atravessar a região. Como consequência, o fluxo de petróleo foi drasticamente afetado, com a retirada de aproximadamente 13 milhões de barris diários do mercado global. Em maio, o Irã adotou uma nova estratégia, regulamentando o uso do estreito por meio de uma autoridade específica, exigindo registro, rotas autorizadas e cobrança de pedágios. Apesar de um Memorando de Entendimento assinado com os EUA em junho, que suspendeu temporariamente as cobranças, o Irã continuou a atacar navios não registrados, levando os militares americanos a coordenar travessias noturnas — conhecidas como “dark transits” — para garantir a continuidade das exportações de petróleo. Essas ações evidenciam o aumento da influência iraniana sobre o controle do Estreito de Hormuz, tornando o fechamento da passagem uma tática efetiva e permanente, e não mais uma ameaça hipotética.

Especialistas indicam que, ao final do conflito, o Irã pode consolidar uma posição mais forte na administração do estreito, o que obrigará os países dependentes do petróleo do Oriente Médio a se adaptarem às novas condições. A possibilidade de o Irã cobrar pedágios pela passagem segura, prática já adotada por países como Turquia, Dinamarca, Suécia, Rússia e Indonésia, pode elevar o custo do petróleo. Segundo Natasha Kaneva, chefe de análise de commodities do JPMorgan, uma estrutura tarifária semelhante à turca poderia acrescentar cerca de US$ 1 ao preço do barril, com um navio-tanque pagando aproximadamente US$ 260 mil por uma travessia de ida e volta.

Paralelamente, a China, que não é grande produtora de petróleo, demonstrou grande influência no mercado durante o conflito. Utilizando seus extensos estoques acumulados, reduziu suas importações de petróleo bruto em cerca de 5 milhões de barris por dia, conforme dados do economista Joe Brusuelas, da RSM US. Além disso, mudanças no comportamento do consumidor chinês parecem ser permanentes. Durante o feriado de 1º de maio, por exemplo, o carregamento de veículos elétricos nas rodovias do país cresceu 55,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, e quase um quarto dos veículos nas estradas eram elétricos, refletindo uma mudança significativa na matriz de transporte.

A China também conseguiu migrar rapidamente de usinas movidas a petróleo e gás para carvão, demonstrando resiliência diante do choque no abastecimento. Dados do JPMorgan indicam que, durante a guerra, o mundo consumiu cerca de 800 milhões de barris de petróleo a menos do que o previsto, representando quase metade dos 1,9 bilhão de barris que deixaram de ser entregues do Oriente Médio. A redução na demanda por gasolina e outros combustíveis, por sua vez, sugere que o mercado se tornou mais flexível em relação ao uso de combustíveis fósseis do que se acreditava anteriormente.

Outro aspecto relevante é o aumento da produção de petróleo em regiões fora do Oriente Médio. Países como Brasil, Guiana, Canadá e Noruega expandiram suas extrações, com o Brasil adicionando aproximadamente 800 mil barris por dia, a Guiana cerca de 300 mil, o Canadá 200 mil e a Noruega 150 mil. Nos Estados Unidos, a produção aumentou em 900 mil barris diários em relação ao mesmo período do ano passado, impulsionada principalmente por plataformas privadas voltadas à produção de combustíveis para aviação e gás natural destinado ao mercado europeu.

No Oriente Médio, esforços como o uso de comboios de caminhões para transporte até o Mar Vermelho e a maximização do oleoduto Leste-Oeste pela Arábia Saudita demonstram estratégias de contorno ao controle do estreito. O Iraque, por sua vez, negocia com a Chevron a construção de um oleoduto até o Mar Mediterrâneo. Entretanto, a crise na organização dos maiores países produtores, a OPEP, se intensifica após os Emirados Árabes Unidos anunciarem sua saída do bloco em abril. O Iraque, segundo maior produtor do grupo, também considera abandonar a organização se suas demandas de aumento na produção não forem atendidas, buscando ampliar sua capacidade de até 7 milhões de barris diários ao final do conflito.

Essas mudanças podem gerar um cenário de maior oferta de petróleo, com preços potencialmente mais baixos para os consumidores, mas também podem criar um excesso permanente de oferta, reduzindo os lucros do setor petrolífero. A combinação de fatores indica que o conflito no Irã não apenas alterou a rotina do mercado de petróleo, mas também redesenhou a estrutura de poder e influência no comércio global de energia por um período prolongado.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade