O aumento da inadimplência no setor bancário brasileiro tem sido um fator determinante na deterioração dos resultados financeiros das instituições financeiras, especialmente em um contexto de alta contínua da taxa básica de juros, a Selic. Nos últimos balanços trimestrais, observou-se uma divisão clara entre bancos que conseguiram manter sua resiliência e aqueles mais expostos às vulnerabilidades do crédito de varejo e do agronegócio, setores mais sensíveis ao encarecimento do crédito.
O Santander Brasil, por exemplo, apresentou um lucro líquido gerencial de aproximadamente R$ 3 bilhões no segundo trimestre, uma redução de 17,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, além de resultados aquém das expectativas de analistas. Essa queda foi acompanhada por uma queda de cerca de 7% nas ações do banco no dia do anúncio e uma desvalorização acumulada de aproximadamente 21% em 2026, enquanto a matriz espanhola do grupo subia quase 24% no mesmo período. A principal causa foi o aumento da inadimplência, que atingiu 3,3% nos últimos doze meses, ante 2,8% anteriormente, levando o banco a reforçar provisões para calotes em R$ 7,65 bilhões — um incremento de 11,5% na comparação anual. Esse cenário reflete um ambiente em que uma parcela maior de clientes encontra dificuldades para honrar seus compromissos financeiros, corroendo não apenas o lucro, mas também a confiança dos investidores.
O Banco do Brasil também enfrentou dificuldades semelhantes, embora concentradas no setor do agronegócio. A seca, a redução do preço de commodities e um ciclo de endividamento rural que se alongou nos últimos anos elevaram a inadimplência de mais de 90 dias na carteira rural para 6,22%, um aumento de 3,5 pontos percentuais em um ano. Como consequência, o banco registrou uma queda superior a 50% no lucro do primeiro trimestre, atingindo R$ 4,4 bilhões, além de revisar para baixo suas projeções de lucro para o ano. Analistas do Itaú BBA indicam que o ciclo de dificuldades do setor agro ainda não terminou, o que sugere que o Banco do Brasil pode continuar tendo que realizar provisões adicionais nos próximos trimestres.
A fintech Nubank também demonstra que o impacto da elevação dos juros não se restringe aos bancos tradicionais. Apesar de ter registrado receitas e lucros recordes no primeiro trimestre, o mercado passou a observar com atenção o aumento de atrasos entre 15 e 90 dias, que subiram de 4,11% para 5%, além do salto de mais de 70% nas provisões para calotes na comparação anual. Mudanças internas, como a saída do CFO que estava na empresa há sete anos, e o rebaixamento do Bank of America, que passou a recomendar venda das ações, contribuíram para uma queda acumulada de quase 30% nas ações do banco em 2026. Mesmo apresentando crescimento e maior rentabilidade, o Nubank sofre os efeitos do ciclo de juros altos, que tornam sua base de clientes mais exposta ao crédito de varejo e, por consequência, mais vulnerável às oscilações do mercado.
O elemento comum a esses casos é o impacto do juro elevado: o encarecimento do crédito torna as parcelas mais pesadas para famílias e empresas, aumentando a inadimplência. Bancos com carteiras mais concentradas em varejo, pequenas empresas ou no setor do agronegócio sentem esse efeito de forma mais intensa e rápida, pois esses públicos são mais sensíveis ao custo do dinheiro. Em contrapartida, instituições como Itaú e BTG Pactual têm conseguido se manter resilientes, graças a estratégias que priorizam a qualidade na concessão de crédito e à diversificação de seus negócios. O Itaú, por exemplo, mantém a inadimplência acima de 90 dias estável, adotando uma postura conservadora que evita o aumento de riscos, enquanto o BTG concentra suas operações em banco de investimento e gestão de patrimônio, setores menos afetados pela inadimplência de famílias.
A lição que emerge dessa temporada de balanços é que, em ciclos de juros elevados, o mercado diferencia os bancos conforme a composição de suas carteiras de crédito. Empresas com maior exposição ao varejo e ao agronegócio sofrem mais, enquanto aquelas que diversificam seus negócios ou adotam critérios mais rígidos na concessão de crédito conseguem manter maior estabilidade. Com a manutenção da Selic em patamares elevados, essa distinção deve continuar a se evidenciar nos próximos resultados trimestrais, tornando essencial que investidores analisem não apenas o nome do banco, mas também a composição de suas carteiras para evitar surpresas futuras.