A busca por emagrecimento rápido, seja por meio de dietas rigorosas, cirurgias bariátricas ou medicamentos para perda de peso, requer supervisão médica cuidadosa. Além dos desafios nutricionais, um dos riscos associados a essa prática é o aumento da probabilidade de formação de pedras na vesícula, uma condição que pode ser assintomática ou levar a complicações que exigem intervenção cirúrgica.
Especialistas na área de saúde destacam que o fator mais crítico relacionado ao surgimento de cálculos biliares não é apenas o método de emagrecimento adotado, mas sim a rapidez com que a perda de peso ocorre. Quanto mais rápida e significativa for a redução de peso, maior é o risco de desenvolver essa condição. A gastroenterologista Cláudia Machado, do Hospital da Bahia, explica que a perda de peso acelerada interfere no funcionamento da vesícula biliar e na composição da bile, criando um ambiente propício para a formação de cálculos.
Durante a rápida diminuição de gordura no corpo, o organismo libera uma quantidade excessiva de colesterol, que é processado pelo fígado e se torna parte da bile. Simultaneamente, dietas extremamente restritivas, especialmente aquelas com baixo teor de gordura, provocam uma contração menos frequente da vesícula, resultando em estagnação da bile. “Não é apenas o emagrecimento em si, mas a velocidade da perda de peso que aumenta o risco de formação de cálculos biliares”, ressalta Cláudia.
A médica alerta que o risco é acentuado quando a perda de peso ultrapassa 1,5 quilo por semana ou quando há uma redução significativa do peso corporal em um curto período. Pacientes que passam por cirurgia bariátrica ou que utilizam medicamentos para emagrecimento frequentemente apresentam uma incidência maior desse problema, uma vez que esses tratamentos costumam induzir a uma perda de peso mais rápida.
A endocrinologista Cristina Khawalli, do Delboni, em São Paulo, complementa que a relação entre emagrecimento rápido e formação de pedras na vesícula é bem documentada na medicina e envolve diversos mecanismos fisiológicos. Durante a rápida degradação da gordura corporal, há um aumento no colesterol na bile, enquanto a ingestão reduzida de alimentos diminui o estímulo para a contração da vesícula, favorecendo a estagnação da bile e a formação de cristais que podem evoluir para cálculos.
Cristina também observa que estudos indicam uma maior frequência de colelitíase em pacientes que utilizam agonistas do GLP-1 de alta potência, como semaglutida e tirzepatida. Contudo, o principal fator de risco continua sendo a magnitude e a velocidade da perda de peso, e não necessariamente o uso dos medicamentos.
Ela ainda acrescenta que indivíduos com obesidade já têm um risco elevado para o desenvolvimento de cálculos biliares, e aqueles que possuem lama biliar ou pedras pré-existentes têm ainda mais chances de enfrentar essa complicação. O tratamento deve ser adaptado a cada paciente, sendo que uma perda de peso gradual, em torno de 0,5 a 1 quilo por semana, é considerada uma abordagem mais segura para evitar complicações.
Na maioria das situações, as pedras na vesícula não apresentam sintomas e são detectadas em exames de rotina. Quando os sintomas aparecem, podem incluir dor intensa na parte superior direita do abdômen, especialmente após refeições ricas em gordura, além de náuseas e vômitos. Em casos mais graves, os cálculos podem obstruir a saída da vesícula ou migrar para os ductos biliares, resultando em inflamação da vesícula (colecistite), pancreatite ou obstrução das vias biliares, que podem ocasionar icterícia e urina escura.
Para mitigar os riscos, as especialistas recomendam evitar dietas excessivamente restritivas, promover uma perda de peso gradual, manter acompanhamento com profissionais de saúde, praticar atividades físicas regularmente e adotar uma dieta equilibrada, com a ingestão adequada de gorduras saudáveis, sempre sob orientação médica ou nutricional.