O que acontece quando um dom musical extraordinário se transforma na ferramenta perfeita para o crime? Essa é a premissa central de “O Afinador”, novo filme dirigido por Daniel Roher. A trama acompanha Niki (Leo Woodall), um ex-pianista diagnosticado com hiperacusia ? uma sensibilidade dolorosa aos sons ? que passa a usar sua audição excepcional não apenas para afinar instrumentos de alto padrão, mas para arrombar cofres com precisão cirúrgica.
Dividido entre o submundo e o romance com a musicista Ruthie (Havana Rose Liu), o protagonista conduz o espectador por uma narrativa que transita fluidamente entre gêneros. O título conta também com Dustin Hoffman no elenco. Em entrevista exclusiva ao UOL, os atores detalharam os desafios e as surpresas dos bastidores.
Três filmes em um
A mistura de tons é o grande trunfo do longa. Para Woodall, a experiência de filmagem refletiu perfeitamente a divisão da vida de seu personagem.
“Foi interessante gravar porque, no final, parecia que eu tinha feito três filmes diferentes”, disse o ator. “Toda a parte com o Dustin [Hoffman] tinha um viés mais cômico. Depois tínhamos o romance com Liu, e, claro, toda a parte de alta tensão e os roubos com os meninos israelenses. Foram experiências completamente diferentes e muito divertidas.”
A dor do luto e a perda de propósito
Para compor personagens tão ligados à música, ambos os atores precisaram acessar emoções profundas, especialmente lidando com a dor da perda. No caso de Woodall, a construção de Niki passou por entender a tragédia de ter seu maior dom transformado em sofrimento físico pela hiperacusia.
“Sempre voltava à pergunta que inspirou o Daniel a fazer esse filme: se o seu propósito e sua paixão são tirados de você, quem você é?”, disse Woodall. “Estar perto dos pianos, mesmo que apenas os afinando, é uma forma que ele encontra de se manter próximo à música. Mas estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe de algo que você ama é uma fonte imensa de dor.”
Já Liu encontrou em sua personagem, Ruthie, um porto seguro para processar um luto muito real. A atriz havia perdido sua avó, a principal figura musical de sua família, pouco antes das gravações.
“A personagem foi um ótimo recipiente para grande parte do luto e dos sentimentos complexos que eu estava vivendo”, disse Liu. “Senti que, de alguma forma, o filme foi uma ode a ela. Eu estava procurando algo em que pudesse colocar minha dor, e então a Ruthie apareceu e me disse: ‘Ei, você pode dar isso para mim’.”
Adrenalina criminosa e a lenda Dustin Hoffman
Quando questionado sobre a bússola moral de um personagem que cruza a linha da arte para o crime, Woodall é direto ao apontar que Niki encontrou no perigo algo que faltava em sua vida.
“Parte da justificativa é a motivação dele de cuidar de alguém que ama. Mas, sendo sincero, ele meio que gostou da emoção”, disse Woodall. “Acho que ele era alguém que não vivia grandes emoções há muito tempo. Isso era algo novo, perigoso e rebelde. Ele podia ter vergonha de admitir, mas na verdade era muito empolgante.”
Além da tensão do roteiro, a dupla teve que lidar com o peso de dividir a tela com uma lenda do cinema: Hoffman. A expectativa, no entanto, foi rapidamente quebrada pela doçura do veterano de 88 anos.
“Achei que ele seria muito mais intimidador, e ele não é”, admite Woodall. “Ele é um senhor amável, gentil e um profissional completo, focado em elevar todas as cenas.”
Liu completa destacando a humildade surpreendente do ator veterano no set de filmagem:
“O que também me surpreendeu foi ver a insegurança dele. Foi muito revigorante. Ele foi tão amoroso ao compartilhar o nervosismo do primeiro dia de filmagem com a gente. Eu pensei: ‘Nossa, então eu vou me sentir assim pelo resto da minha vida’. Foi muito bonito.”
Atores de ‘O Afinador’ usaram dores reais para criar suspense