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Especialista em dislexia no Hospital Sarah: “Crianças precisam praticar para dominar a leitura”

BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto

A leitura é uma conquista cultural relativamente nova que demanda uma reorganização significativa do cérebro humano, em contraste com a linguagem falada, que se desenvolve de maneira natural. Essa é a perspectiva do neurocientista francês Stanislas Dehaene, um dos líderes na área de neurociência cognitiva.

Como professor no Collège de France e presidente do recém-formado Conselho Científico Francês, Dehaene foi um dos palestrantes do 1º Congresso Latino-Americano da Federação Mundial de Neurorreabilitação (WFNR), que ocorreu no Hospital Sarah, em Brasília, nesta sexta-feira (9/5).

“O cérebro humano não foi projetado para a leitura. Para isso, ele precisa se adaptar, utilizando áreas já existentes, especialmente aquelas relacionadas à linguagem falada e ao reconhecimento visual”, explicou o pesquisador, enquanto mostrava imagens da chamada “área de forma visual das palavras”, situada no sulco occipitotemporal esquerdo.

De acordo com ele, essa área se desenvolve rapidamente nas crianças assim que elas iniciam o processo de alfabetização, estabelecendo conexões entre grafemas e fonemas. “Aprender a ler é criar uma ponte entre visão e linguagem. Porém, isso não ocorre de forma automática e requer um ensino explícito”, enfatizou.

Dehaene descreveu que o aprendizado da leitura se dá em duas etapas principais: primeiro, a criança decodifica as palavras de forma lenta e consciente, som por som; em seguida, com prática, ela passa a reconhecer palavras de maneira automática. Essa automatização permite que mais energia cognitiva seja liberada para outras atividades, como compreender textos, resolver problemas ou aprender matemática.

“Durante a alfabetização, áreas adicionais do cérebro infantil são ativadas, incluindo os lobos parietais e frontais. Contudo, com o tempo, a leitura se torna tão automática quanto o reconhecimento de um rosto”, detalhou.

Para agilizar esse processo, o neurocientista propõe a adoção de práticas fundamentadas em evidências científicas, como o ensino sistemático das relações entre letras e sons, a ampliação do vocabulário e a leitura em voz alta. “Ler não é um talento inato, mas uma habilidade que pode e deve ser ensinada”, concluiu.

A palestra também abordou como esse conhecimento pode ser aplicado na identificação precoce de dificuldades na leitura e nos diferentes tipos de dislexia, que Dehaene sempre menciona no plural. Ele destacou que a dislexia não possui uma causa única, podendo envolver tanto dificuldades fonológicas quanto visuais.

“Algumas crianças têm dificuldade em perceber os sons da língua — isso caracteriza a dislexia fonológica. Outras enfrentam problemas com a forma das letras ou em se concentrar em uma única palavra. Cada tipo demanda uma intervenção diferente”, explicou. Entre as estratégias sugeridas, estão o uso do tato para reconhecer letras, o espaçamento entre caracteres e o emprego de janelas móveis que ajudam a isolar palavras no texto.

De acordo com Dehaene, na França, as crianças do 1º ano passam por uma série de testes cognitivos obrigatórios que auxiliam na detecção de problemas no desenvolvimento da leitura antes mesmo de um diagnóstico formal de dislexia. Em entrevista ao Metrópoles, ele detalhou que esses testes são realizados no início e no meio do ano letivo e novamente no 2º ano.

“Esses dados não servem apenas para estatísticas. Os resultados são enviados diretamente aos professores, que podem intervir com base nas necessidades específicas de cada aluno, ajudando a evitar dificuldades futuras”, afirmou.

Ele também destacou que há uma meta nacional na França para que todas as crianças leiam 50 palavras por minuto ao final do primeiro ano. “Não há motivo para que os alunos brasileiros da primeira série não consigam alcançar algo semelhante. O português é, inclusive, mais fácil de decodificar do que o francês”, acrescentou.

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Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade