A gente passa o dia tentando decifrar o que o algoritmo quer.
Beleza? Dança? Trend? Hype?
Aí o TikTok solta a Discover List 2026, os 50 criadores do mundo todo pra ficar de olho neste ano, e a representante do Brasil é uma camponesa de Londrina que ensina a fazer torta de amora colhida no quintal.
Pera. Como assim?
Alene de Godoy, a @afroecologica. Geógrafa, professora, camponesa. Centena de milhares de seguidores, milhões de curtidas falando de agroecologia, puba, comida afetiva, soberania alimentar. Não tem coreografia. Não tem GRWM. Tem a mão na terra e a panela no fogo.
Alene foi escolhida na categoria Foodies, ao lado de criadores dos cinco continentes, a única brasileira entre os 50.
E aqui é onde a coisa fica muito interessante: a gente vinha apostando que, pra estourar lá fora, era preciso falar a língua do hype global. Beleza importada, dança coreografada, lifestyle de para gringo ver. Mas o algoritmo viu valor em outra coisa. Viu valor no que é nosso de verdade.
E não é a primeira vez. O que a gente exporta de mais potente, o axé, o samba, o forró, a feijoada, a roça, sempre foi o que a gente tratou como menor dentro de casa. A elite brasileira passa a vida olhando pra Paris enquanto a moda em Paris é entender o Recife.
A Alene não foi escolhida apesar de ser camponesa. Foi escolhida porque é. Num mundo cansado de filtro, de IA cuspindo conteúdo idêntico, de creator economy massacrando creators e os fazendo ser descartáveis, ela representa o oposto: tempo, território, ancestralidade, comida que alimenta.
E eu fico pensando: quantas Alenes a gente tem espalhadas por esse país que ainda não viraram dado no painel de ninguém? Quantas pessoas dessas não estão no Social Listening das marcas? Quantas histórias reais a gente despreza esperando o próximo viral coreografado?
O algoritmo entendeu e a China entenderam. Falta a gente entender.
Não foi a dança nem a beleza: a brasileira do TikTok é da roça