A série “A Influência Transformadora das Doações e do Voluntariado nos Ambientes Hospitalares” explora, em quatro capítulos, o impacto significativo do trabalho voluntário na vida de pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde, além de ressaltar a relevância do terceiro setor e a importância das contribuições — sejam elas de tempo, carinho ou recursos financeiros, como é o caso do troco solidário.
No primeiro capítulo, a série investiga o verdadeiro significado da doação. Embora o dicionário defina doação como o ato de oferecer algo, na prática, essa ação se expande para abranger empatia, afeto e amor ao próximo. O relato inclui histórias de pessoas que dedicam seu tempo, dinheiro e atenção a quem se encontra internado. Em uma unidade destinada a crianças com câncer, encontramos o Dr. Violino. Igor Ribeiro, atuando há dez anos em hospitais de Belo Horizonte, traz música a ambientes frequentemente marcados pela dor e incerteza.
“A música, ao chegar ao CTI infantil, transforma a aridez do cotidiano. O ambiente hospitalar é repleto de angústia e dificuldade. Qualquer elemento que traga leveza, carinho e acolhimento se destaca nesse cenário. A música proporciona, mesmo que por um breve momento, uma fuga da dor, trazendo ludicidade e esperança. Frequentemente, vemos pacientes se emocionando e, a partir disso, se engajando melhor no tratamento”, compartilha.
O voluntariado é retratado como uma força sensível que impulsiona as pessoas a cuidarem umas das outras. Para Elizeu Custódio, conhecido como palhaço Custódio e um dos fundadores do Instituto “Hahaha”, a arte desempenha um papel fundamental nos hospitais. “Quando um palhaço aparece, traz consigo a arte. A criança se ilumina, se movimenta, chama a mãe. Os estímulos gerados são incalculáveis. A arte no hospital se transforma em trabalho, profissão, pesquisa e apoio essencial ao ser humano em um momento de vulnerabilidade extrema”, enfatiza.
No segundo episódio, conhecemos duas mulheres chamadas Renata, que descobriram na solidariedade uma verdadeira missão de vida. Renata Medeiros, do projeto “Amor que Cura”, iniciou sua jornada após ser diagnosticada com câncer de mama em fase avançada. Durante o tratamento no Hospital da Baleia, ela se deparou com uma realidade ainda mais chocante: “Muitos pacientes passam o dia no hospital sem se alimentar. Não têm dinheiro nem para um café. Isso me entristeceu mais do que meu diagnóstico. Compreendi que minha presença ali não era por acaso.” Com recursos próprios e auxílio-doença, Renata começou a oferecer lanches simples para pacientes em quimioterapia. “Iniciamos com pão com manteiga e café. Eles me abraçavam em lágrimas, dizendo que aquela seria a única refeição do dia.”
A iniciativa cresceu, conquistou apoio nas redes sociais e evoluiu para algo maior: grupos de apoio emocional, rodas de conversa e acolhimento. “O hospital tornou-se meu campo missionário. Não era apenas sobre alimento; era sobre presença, um simples bom dia. Muitos enfrentam o tratamento sozinhos.”
Por sua vez, Renata Camargo, à frente do projeto “Comida que Abraça”, começou a distribuir refeições a pessoas em situação de rua durante a pandemia, mas logo percebeu que a insegurança alimentar também afetava acompanhantes de pacientes hospitalizados. “Muitas dessas pessoas vêm do interior, passam o dia no hospital e não têm como se alimentar.”
Atualmente, o projeto já distribuiu mais de 500 mil refeições, atendendo UPAs e hospitais.
De acordo com a pesquisa sobre Voluntariado no Brasil de 2021, aproximadamente 56% da população adulta já se envolveu em atividades voluntárias. O Brasil contava com 57 milhões de voluntários ativos. A solidariedade é a principal motivação para essa participação.
Na Santa Casa de Belo Horizonte, 168 voluntários atuam em diversas áreas. O provedor da instituição, Roberto Otto, explica: “Temos voluntariado em bazares, na palhaçaria, no acolhimento. Existem inúmeras formas de contribuição.”
Estudos da UFMG indicam que o voluntariado hospitalar beneficia pacientes, profissionais e estudantes da área da saúde, fortalecendo laços e proporcionando apoio emocional.
O Tio Flávio, do Instituto Cultural Tio Flávio, destaca que muitas pessoas desejam ajudar, mas enfrentam a falta de tempo. “Muitos acham bonito, mas encontram dificuldades. Alguns se aproximam por curiosidade e acabam se apaixonando; outros não retornam.”
Ele também menciona a importância do financiamento para iniciativas sociais sérias: “Há uma economia da solidariedade. Muitas pessoas fazem muito com poucos recursos.”
“Você gostaria de doar seu troco?” Essa pergunta, comum no comércio, já mobilizou milhões de pessoas. A aposentada Neuza Bambirra é uma delas: “Sempre doo. Antes mesmo de pedirem.” A campanha do Troco Solidário, lançada pela Drogaria Araújo em 2003, apoia o Hospital da Baleia. Em 22 anos, arrecadou mais de R$ 41 milhões, com uma média de 38 centavos por doação.
Para Danielle Ferreira, superintendente de relações institucionais do hospital, o impacto vai além das doações financeiras: “Muitas pessoas que começam doando acabam se envolvendo e se tornando voluntárias.”
Seja através de tempo, talento ou pequenas contribuições financeiras, tudo se resume à solidariedade. O voluntariado necessita de recursos para existir, e o troco solidário exemplifica como pequenos gestos podem gerar grandes transformações.
Esta reportagem especial teve como objetivo iluminar o papel do voluntariado e da solidariedade como forças transformadoras, fazendo um convite ao cuidado e despertando a esperança.